A 4ª Revolução Industrial e o Futuro do trabalho

A Quarta Revolução Industrial, que inclui desenvolvimentos em campos anteriormente desarticulados, como inteligência artificial e aprendizado de máquina, robótica, nanotecnologia, impressão 3D, e genética e biotecnologia, causará uma ruptura generalizada[1] não apenas nos modelos de negócios, mas também nos mercados de trabalho. Os próximos anos serão de enorme mudança no conjunto de habilidades necessárias para prosperar. Essa velocidade vem derretendo certezas em relação ao futuro do trabalho. Entender a natureza das mudanças e suas implicações é um exercício fundamental para ajustar o rumo das instituições que realizam a preparação das novas gerações para viver em Sociedade no século XXI. Um mundo onde robôs, a automação e inteligência artificial realizam cada vez mais tarefas, associado a todo o complexo de mudanças oriundo da velocidade das mudanças gera um enorme desencaixe entre o que é aprendido nos centros de formação e o que é exigido em termos de habilidade no mundo atual e futuro próximo. Os especialistas afirmam que nesse cenário uma ampla gama de iniciativas e estratégias de desenvolvimento e certificação de habilidades será criada para atender às novas demandas[2].

Para falar de educação é preciso entender minimamente a dinâmica do mundo do trabalho. Precisamos entender que formamos nossas crianças e jovens também para o mundo do trabalho – previsão constitucional inclusive prevista no Artigo 205 da Constituição Federal. E para falar da educação do futuro é preciso olhar para os desafios associados ao futuro do trabalho. Apresento aqui uma revisão bibliográfica dos estudos sobre o futuro do trabalho mais relevantes apresentados nos últimos anos.

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Vários estudos apontam que um grande número de empregos está em risco[3] ou será significativamente transformados[4], à medida que  dispositivos programados – muitos deles sistemas inteligentes e autônomos[5] – continuam sua marcha em direção aos locais de trabalho. O Centro de Pesquisas Pew e o Imagining the Internet Center da Elon University perguntou em 2014 para especialistas[6] se inteligência artificial e robótica criariam mais empregos do que eles destruiriam, o veredicto foi dividido: 48% dos entrevistados previram um futuro onde mais empregos são perdidos do que criados, enquanto 52% disseram que mais empregos seriam criados do que perdidos. Desde essa pesquisa, o futuro dos empregos tem estado no topo da agenda em muitas das principais conferências mundiais.

Uma ideia-chave emergente é que mudanças nos ambientes de ensino e aprendizagem são necessárias para ajudar as pessoas a permanecerem empregáveis na força de trabalho do futuro. Entre as seis descobertas gerais em um novo relatório de 184 páginas da National Academies of Sciences[7], os especialistas recomendaram: “O sistema educacional precisará se adaptar para preparar as pessoas para a mudança do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, avanços recentes em TI oferecem maneiras novas e potencialmente mais acessíveis de acessar a educação ”.

Se tecnologia avança rapidamente,  as organizações e habilidades tendem a se mover em um ritmo mais lento. Nas próximas décadas, a divisão entre a tecnologia em rápida evolução e o ritmo mais lento do desenvolvimento humano crescerá à medida que melhorias exponenciais na inteligência artificial, robótica, redes, análise e digitalização afetarem cada vez mais a economia e a sociedade. É preciso reconfigurar organizações e instituições para serem eficazes e adequadas à economia digital e ao grande desafio do nosso tempo. É preciso ajudar as organizações a entender como a transformação digital está afetando a sociedade e a vida cotidiana para que as pessoas se tornem mais produtivas e prosperarem em um momento de grandes e incertas mudanças.

Uma pesquisa do Centro de Pesquisas Pew de 2016, “O Estado dos empregos americanos”[8],  descobriu que 87% dos trabalhadores acreditam que será essencial que eles recebam treinamento e desenvolvam novas habilidades profissionais ao longo de sua vida profissional.  Esta pesquisa observou que a demanda por capacitação é muito maior entre os empregos que exigem um nível médio ou acima da média de preparação (incluindo educação, experiência e treinamento profissional); competências interpessoais, de gestão e de comunicação, médias ou acima da média; e níveis mais altos de habilidades analíticas, como pensamento crítico e habilidades de computação.

Já o Relatório “White Paper Re-Imagining Work – Work 4.0”[9] do Governo Alemão destacou a importância de se promover a aprendizagem ao longo da vida e o direito de todos os trabalhadores à educação e formação profissional contínua, por meio de abordagens inovadora do tempo de trabalho que reconheça as demandas pessoais, familiares e sociais das pessoas, juntamente com as demandas de trabalho, que apoie novas soluções para equilibrar essas demandas. O relatório da PWC[10] “Workforce of the future – The competing forces shaping 2030” afirma que a forma que a força de trabalho do futuro assumirá será o resultado de forças complexas, mutáveis e competitivas. Algumas dessas forças são certas, mas a velocidade com que elas se desdobram pode ser difícil de prever. Regulamentos e leis, os governos que os impõem, tendências amplas no sentimento do consumidor, cidadão e trabalhador influenciarão a transição para um local de trabalho automatizado. O resultado desta batalha determinará o futuro do trabalho em 2030. Já o Relatório “The Future of Jobs Report[11]” afirma que o ritmo acelerado do desenvolvimento de tecnologias, de mudanças demográficas e socioeconômicas está transformando indústrias e modelos de negócios, mudando as habilidades de que os empregadores precisam e encurtando a o tempo de “vida” de conjuntos de habilidades existentes dos trabalhadores no processo. Por exemplo, a robótica e as “machine learning” não substituem completamente as ocupações e categorias de trabalho existentes – mas tarefas específicas anteriormente executadas como parte desses trabalhos, liberando os funcionários para se concentrarem em novas tarefas e levando a mudanças rápidas no processo de trabalho.  Nesse novo ambiente, a mudança do modelo de negócios frequentemente traduz-se em ruptura do conjunto de habilidades quase simultaneamente. Durante as revoluções industriais anteriores, foram muitas vezes necessárias décadas para construir os sistemas de formação e as instituições do mercado de trabalho necessárias para desenvolver novas e importantes em grande escala. Dado o próximo ritmo e escala de ruptura provocada pela Quarta Revolução Industrial, no entanto, esse tempo não estará disponível, logo essa não será uma opção. As tendências tecnológicas atuais estão gerando uma taxa de mudança sem precedentes no conteúdo do currículo principal de muitos campos acadêmicos, com quase 50% do conhecimento do assunto adquirido durante o primeiro ano de um diploma técnico de quatro anos desatualizado no momento em que os alunos se formam[12].

Focando em um conjunto de 35 habilidades relevantes ao trabalho que são amplamente usadas em todos os setores da indústria, o relatório do Fórum Econômico considera que estas habilidades estarão sujeitas a mudanças aceleradas e mudanças significativas no futuro imediato. Em média, até 2020, mais de um terço dos conjuntos de habilidades essenciais desejadas para a maioria das ocupações será composto por habilidades que ainda não são consideradas cruciais para o trabalho atual, de acordo com a pesquisa. Os atuais mercados de trabalho e habilidades sob demanda serão muito diferentes daquelas de 10 ou até cinco anos atrás e o ritmo da mudança deve acelerar. Governos, empresas e indivíduos estão cada vez mais preocupados em identificar e prever habilidades que são relevantes não apenas hoje, mas que permanecerão no futuro para atender às demandas de negócios por talentos e permitirão àqueles que as possuem aproveitar oportunidades emergentes.

À luz das tendências tecnológicas, muitos países realizaram esforços significativos para aumentar a quantidade de Diplomados STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) produzidos pelos seus sistemas educacionais nacionais. Embora as tendências em matéria de emprego identificadas corroborem para a importância destes esforços, é igualmente claro que a potencial criação líquida de postos de trabalho em termos absolutos apenas no domínio das STEM não será suficiente para absorver tensões noutras partes do mercado de trabalho. Nesse sentido, mudanças disruptivas terão um impacto significativo nas exigências de habilidades e elas estão criando uma gama de oportunidades e desafios em todos os setores, não apenas estreitamente relacionadas ao “conhecimento sólido”, habilidades técnicas e tecnologia. A fim de gerenciar essas tendências com sucesso, existe a necessidade de potencialmente substituir e qualificar talentos de diferentes formações acadêmicas em todos os setores. Na prática existem hoje grande descompasso entre a oferta real e a demanda das principais habilidades relacionadas ao trabalho, e 38% dos empregadores relatam dificuldades no preenchimento de vagas em 2015, de acordo com a mais recente Pesquisa de Escassez de Talentos da ManpowerGroup[13].

As incompatibilidades de habilidades emergem não apenas entre a oferta e a demanda de habilidades existentes hoje, mas também entre a atual base de habilidades e os futuros requisitos de habilidades. Esforços voltados para o fechamento da lacuna de habilidades  está ancorado em uma sólida compreensão da base de habilidades de um país ou do setor hoje e de alterar os requisitos futuros de habilidades devido a mudanças disruptivas. Por exemplo, os esforços para colocar os jovens desempregados em estágios em certas categorias de trabalho através do treinamento de habilidades direcionadas podem ser inúteis se os requisitos de habilidades nessa categoria de trabalho forem drasticamente diferentes em alguns anos.  De fato, em alguns casos, tais esforços podem ser mais bem-sucedidos se focarem seus modelos em expectativas futuras. Independentemente do trabalho em que você esteja, espere enfrentar pressão para modificar constantemente suas habilidades.

O Relatório sobre o Futuro do Trabalho do Fórum Econômico Mundial[14] revela ainda que em quase todos os setores, o impacto de mudanças tecnológicas e outras está diminuindo o prazo de validade dos conjuntos de habilidades existentes dos funcionários. Mesmo os trabalhos que diminuirão em número passam simultaneamente por mudanças nos conjuntos de habilidades necessárias para executá-los. Em média, até 2020, mais de um terço dos conjuntos de habilidades essenciais desejadas para a maioria das ocupações será composto por habilidades que ainda não são consideradas cruciais para o trabalho atual. Além disso, as habilidades técnicas precisarão ser complementadas com fortes habilidades sociais e de colaboração.

É preciso fortalecer a capacidade de compreender a base atual de habilidades em tempo quase real e prever, antecipar e preparar com precisão os requisitos futuros de conteúdo profissional e habilidades . Essa capacidade será cada vez mais crítica para empresas, formuladores de políticas de mercado de trabalho e organizações de trabalhadores e indivíduos para ter sucesso.

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O Documento da OIT “The Future of Work: A Literature Review[15]” destaca que a enorme quantidade de literatura que surgiu nos últimos anos no contexto do “Futuro do Trabalho”. Acadêmicos, think tanks e formuladores de políticas alimentaram discussões ricas sobre como o futuro do trabalho pode ser e como podemos moldá-lo.

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Apresenta uma detalhada revisão acerca dos estudos existentes, e apresenta uma tabela com as estimativas de desemprego oriunda do desenvolvimento da tecnologia, derivadas de várias dessas pesquisas.

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O impacto de todas as já citadas rupturas tecnológicas, demográficas e socioeconômicas nos modelos de negócios será sentido em transformações no cenário do emprego e nos requisitos de habilidades, resultando em desafios substanciais para o recrutamento, treinamento e gerenciamento de talentos. Diversas indústrias podem encontrar-se em um cenário de demanda positiva de emprego por ocupações especializadas difíceis de recrutar, com instabilidade de habilidades simultâneas em muitas funções existentes. Por exemplo, a indústria da Mobilidade espera um crescimento do emprego acompanhado de uma situação em que quase 40% das exigido pelos principais trabalhos da indústria ainda não fazem parte do conjunto de habilidades básicas dessas funções hoje.

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As respostas à pesquisa sobre o futuro do trabalho[16] indicam que os líderes empresariais estão cientes desses desafios iminentes mas ainda não agem para enfrentar os desafios de maneira  decisiva. Pouco mais de dois terços dos entrevistados na pesquisa acreditam que o futuro planejamento da força de trabalho e recursos de gerenciamento de mudanças é uma prioridade razoavelmente alta ou muito alta na agenda da liderança sênior de sua empresa ou organização, variando de pouco mais da metade no setor Básico e Infraestrutura até quatro cinco entrevistados em Energia e Saúde. Em todos os setores, cerca de dois terços dos entrevistados também relatam intenção de investir na formação continuada de funcionários  como parte de seus esforços de gerenciamento de mudanças e planejamento da força de trabalho futura, tornando-a de longe a mais bem classificada. No entanto, as empresas que relatam reconhecer o planejamento futuro da força de trabalho como uma prioridade são quase 50% mais propensas a planejar investir em requalificação do que as empresas que fazem isso.

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O relatório fornece uma indicação relativamente clara de onde esses esforços de formação continuada podem ser concentrados da maneira mais eficaz e eficiente. O relatório categoriza habilidades relevantes para o trabalho em habilidades, habilidades básicas e habilidades interfuncionais, com crescimento de demanda particularmente forte esperado em certas habilidades interfuncionais, habilidades cognitivas e habilidades básicas como aprendizagem ativa e TIC.

Outro Estudo relevante para entender o desafio é o Estudo “Jobs Lost, Jobs Gained: Workforce Transitions in a Time of Automation[17]” realizado pela fez uma robusta análise sobre  o fenômeno da automação e suas implicações no futuro do trabalho. A análise sugeriu que as economias avançadas criarão novos empregos suficientes para compensar o impacto da automação até 2030. Globalmente, no entanto, as transições da força de trabalho serão muito grandes. Entre 75 milhões e 375 milhões de pessoas podem precisar mudar de grupo ocupacional até 2030 devido à automação, e precisarão aprender novas habilidades ou aumentar seu nível de educação para encontrar trabalho. Outra informação relevante é que as categorias de trabalho com demanda crescente tem mais altos requisitos educativos do que o trabalho deslocado ou perdido pela automatização.

Definir e medir as habilidades necessárias para um bom desempenho em qualquer trabalho é uma tarefa complexa. É preciso entender e considerar várias medidas diferentes de habilidades da força de trabalho.

Muitos profissionais e pesquisadores hoje se concentram em separar os graus tradicionais em credenciais (certificados) bem definidas que podem ser obtidas demonstrando o domínio de habilidades específicas. Isto é particularmente atraente para os trabalhadores em meio de carreira que não podem gastar anos ganhando um diploma tradicional, ou que tenham acumulado valor valioso experiência no trabalho. Algumas credenciais são para habilidades bastante restritas: programar em uma determinada linguagem de computador ou dominar um tipo específico de experiência em mecânica. Em economias avançadas, a demanda por trabalho atualmente requerendo o ensino médio ou menos provavelmente diminuirá.  Em economias avançadas, se verifica um padrão comum de requisitos educacionais. As ocupações que atualmente exigem apenas a conclusão do ensino médio ou menos, incluindo empregos como balconistas de escritório, empacotadores e empacotadores, e caixas, são mais propensas a serem afetadas pela automação e têm uma redução líquida na demanda de mão de obra. O crescimento relativo de empregos que exigem maior nível de escolaridade não é um fenômeno novo. No entanto, muitos dos empregos de renda média do passado que exigiam apenas uma educação secundária ou menos e treinamento mínimo provavelmente enfrentarão um deslocamento significativo em um mundo automatizado. Muitos trabalhos adicionais que requerem níveis baixos e médios de realização educacional poderiam ser criados, impulsionados particularmente pela economia solidária. No entanto, para muitos empregos que não exigem ou apenas ensino médio, a demanda adicional de mão de obra futura não compensará totalmente os empregos deslocados pela automação. Isso significaria que muitos trabalhadores deslocados precisariam  elevar seus níveis educacionais para obter emprego em uma das ocupações demandadas. Os trabalhadores deslocados pela automação podem precisar investir tempo para adquirir novas habilidades, seja por meio da educação formal ou de outros programas de treinamento. Por outro lado, os empregos em si podem precisar ser redesenhados para acomodar um fluxo de novos trabalhadores com menos treinamento específico do setor e educação geral. As transições podem ser variadas e levar ao atrito no mercado de trabalho e, potencialmente, ao aumento do desemprego no curto prazo. Mas outras medidas poderiam ser tomadas para fazer os mercados funcionarem melhor. Por exemplo, definir requisitos de trabalho, bem como fornecer treinamento e certificação  com base em habilidades específicas melhora a correspondência entre oferta e demanda de trabalho, pois essas habilidades são muito mais refinadas do que os graus educacionais tradicionais e muitas vezes são adquiridas em menos tempo do que terminar um programa de graduação de vários anos. Enquanto alguns trabalhadores deslocados pela automação serão capazes de encontrar um emprego em uma função similar e com requisitos educacionais semelhantes, muitos não irão, e precisarão ganhar habilidades adicionais, que podem ou não aumentar seu nível educacional.

MELHORAR O TRABALHO E O DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES NO TRABALHO

Proporcionar reciclagem profissional e permitir que os indivíduos aprendam novas habilidades ​​ao longo de suas vidas será um desafio central na próxima década e além. Centenas de milhões de pessoas precisarão encontrar novos empregos à medida que a automação avança, e ainda mais precisarão aprender novas habilidades, incluindo como trabalhar com as máquinas. Nos últimos anos, alguns países experimentaram desafios significativos na tentativa de criar as condições em que os trabalhadores deslocados pela globalização e pela tecnologia encontram rapidamente novos empregos de alta qualidade. O resultado tem sido uma série de empregos de baixa remuneração com oportunidades limitadas de progresso e taxas mais baixas de participação no mercado de trabalho. O desafio para as próximas décadas será criar programas efetivos de treinamento e certificação de força de trabalho em escala. Isso exigirá ações de formuladores de políticas, líderes empresariais e educadores, bem como indivíduos. Registre-se que numa época em que milhões de pessoas precisarão de novas habilidades, o financiamento público para programas de treinamento profissional[18] está caindo em muitos países[19].

As empresas também têm um papel significativo a desempenhar na formação e reciclagem de trabalhadores. Isso vai além de um papel puramente social ou do senso de responsabilidade cívica: os líderes empresariais estarão na linha de frente da automação e terão o conhecimento detalhado sobre os tipos de habilidades de que precisarão à medida que adotarem as tecnologias. Nos Estados Unidos, algumas empresas estão trabalhando diretamente com provedores de educação para dar aos funcionários uma oportunidade de elevar seus níveis educacionais e de qualificação[20].  À medida que o a dinâmica e o processo de trabalho evolui e se sofistica,  definições mais granulares e variadas de habilidades estão emergindo como marcadores de importância crítica, mais ainda do que uma educação universitária em alguns casos. Esse foco nas habilidades de um indivíduo, e não nas credenciais educacionais, está ganhando força com empresas, governos estaduais e organizações sem fins lucrativos.

Os educadores têm um papel a desempenhar no ajuste dos currículos escolares para a era da automação. Embora a automação seja um grande desafio para os trabalhadores que já trabalham, ela também terá implicações sobre como as futuras gerações de trabalhadores são treinadas, envolvendo ajustes nos currículos escolares e nos sistemas educacionais de forma mais ampla. Os currículos precisarão ser adaptados para fornecer aos alunos as habilidades necessárias para um mercado de trabalho dinâmico, tecnológico e cada vez mais orientado a serviços, particularmente em países e indústrias onde as tecnologias de automação provavelmente serão adotadas mais rapidamente. Várias alterações serão necessárias. Primeiro, a demanda aumentará para que os funcionários desenvolvam e implantem tecnologia, ou interpretem e ajam na análise de dados que essas tecnologias podem produzir, mas pode não haver trabalhadores suficientes com as habilidades necessárias para atender a essa demanda, por exemplo, para cientistas de dados. Assuntos STEM serão cruciais para a força de trabalho. A educação precoce em assuntos como estatística, para ajudar os alunos a entenderem um mundo cada vez mais orientado por dados, onde os experimentos são uma fonte essencial de insight, será vital. Alguns países, incluindo a Estônia, a China e o Reino Unido, introduziram a codificação informática no ensino primário e secundário. As classes de codificação nesses países começam com cinco ou sete anos de idade, com uma introdução aos conceitos fundamentais necessários (como a compreensão de algoritmos) e habilidades de codificação como lógica e criação e depuração de programas de computador simples. No entanto, a forte educação em artes liberais para acompanhar as habilidades de alta tecnologia no local de trabalho também pode ser necessária para os trabalhos do futuro. Uma porcentagem crescente de atividades que os trabalhadores farão no futuro será em categorias como gerenciar e liderar outras pessoas e interagir com outras pessoas, que requerem habilidades como percepção e raciocínio social e emocional, e aplicar criatividade e solução colaborativa de problemas. Essas habilidades muitas vezes não fazem parte do currículo formal nos programas escolares tradicionais. Outra descoberta da nossa pesquisa é que a automação e outros fatores, incluindo a globalização, o trabalho independente e as empresas que atravessam as fronteiras do setor, exigirão que todos os trabalhadores mudem o que fazem ao longo do tempo. Isso coloca um prêmio em um conjunto de meta-habilidades, em torno de agilidade, flexibilidade, determinação e aprender a aprender. Ensinar essas qualidades é um desafio para todos os sistemas educacionais e estão presentes nos processos de aprendizagem online, o que ressignifica o entendimento e o papel da aprendizagem online como fator de crítico de sucesso no processo.

As instituições educacionais precisarão se adaptar às crescentes demandas do mercado de trabalho para assegurar que as habilidades críticas para o trabalho estejam sendo ensinadas. A menos que se tornem mais receptivos às demandas do mercado de trabalho, os educadores correm o risco de criar uma desconexão cada vez maior entre educação e emprego. Essa desconexão já é visível em algumas pesquisas.

Mas a nova era digital trouxe uma infinidade de possibilidades para novas formas de aprendizado, tanto dentro do sistema educacional quanto fora dele. Os recursos de aprendizado digital são mais flexíveis em termos de tempo e conteúdo do que o treinamento em sala de aula tradicional, e os programas podem ajustar o conteúdo para que os alunos individualmente otimizem seus resultados de aprendizado. Para os indivíduos, os diplomas on-line podem ser mais vantajosos do ponto de vista de custos do que os de faculdades e universidades tradicionais, particularmente nos Estados Unidos, onde os custos de ensino estão subindo mais rapidamente do que a inflação geral. Alguns cursos on-line massivos abertos (MOOCs) são gratuitos e ajudaram a expandir o acesso a conteúdos educacionais para pessoas de fora das instituições educacionais tradicionais. Os MOOCs apresentam canal para distribuição em larga escala de conteúdo educacional a baixo custo e com potencial para ajudar a facilitar futuras transições de força de trabalho.

ESCALAR RADICALMENTE AS OPORTUNIDADES DE TREINAMENTO NO MEIO DA CARREIRA PARA TORNAR A APRENDIZAGEM AO LONGO DA VIDA UMA REALIDADE

Aprenizagem ao longo da vida tem sido discutida reverentemente nos círculos técnicos e políticos, e está presente nos grandes documentos internacionais de concertação internacional em torno da Educação (Jomtien, Dakar, Incheon), mas a nova era da automação será o momento em que a aplicação em larga escala será necessária mais do que nunca. Flexibilidade e adaptabilidade serão novos mantras da força de trabalho, já que as máquinas substituem algumas atividades humanas e – provavelmente com mais frequência – fundamentalmente as alteram. Para o futuro, será necessário capacitação mais direcionada e de curto prazo para as pessoas, especialmente para aqueles que estão na metade da carreira e que procurarão desenvolver novas habilidades, mesmo que mantenham seus empregos.

O Relatório do Reino Unido “The Future of Work Jobs and Skills in 2030”[21] quando projeta um cenário de inovação adaptativa para o futuro do trabalho em 2030, avalia que as plataformas on-line se tornarão o canal de escolha para oferecer educação e treinamento, por oferecer a opção mais econômica para treinamento essencial no trabalho e para manter as habilidades dos indivíduos atualizadas. Oportunidades de treinamento customizadas são facilmente integradas nos processos corporativos e são usadas regularmente pela maioria das empresas de médio e grande porte.

A análise das capacidades de desempenho mais procuradas na nova era da automação mostra a importância crítica das habilidades tecnológicas, mas também do trabalho em equipe, criatividade, comunicação e habilidades sociais e emocionais. As escolas de muitos países continuam a aderir a uma cultura de educação que permanece enraizada nas noções de ensino e aprendizagem do século XIX. Governos e educadores precisam usar tecnologias digitais para mudar isso, por exemplo, criando caminhos de aprendizagem mais individuais para os alunos. Embora a educação universitária tenha crescido em popularidade e tenha perdido sua reputação elitista em muitos países, muitas instituições de ensino superior não se concentraram suficientemente nas necessidades do mercado de trabalho ou dos graduados que o frequentam. Os governos devem incentivar, identificar e co-financiar programas inovadores que abordem as lacunas de habilidades conhecidas entre trabalhadores, estudantes pós-secundários e jovens – e então dimensionar aquelas que funcionam.

ADQUIRA AS HABILIDADES QUE SERÃO PROCURADAS E EMBARQUE EM UMA JORNADA DE APRENDIZADO PERMANENTE

À medida que as máquinas executam um leque mais amplo e uma variedade de tarefas, os indivíduos precisarão se concentrar mais no desenvolvimento das habilidades que os humanos possuem. Como descrevemos neste relatório, as atividades em quase todas as ocupações mudarão, com mais tempo gasto em atividades que exigem habilidades sociais e emocionais, trabalho em equipe e colaboração, criatividade e níveis mais altos de comunicação e raciocínio lógico. Tanto os governos quanto as empresas têm um papel a desempenhar no fornecimento de melhores informações sobre as habilidades e os empregos na demanda. Os educadores também desempenham um papel. Alunos do ensino médio na maioria dos países recebem instruções e orientações inadequadas sobre como planejar uma carreira no local de trabalho atual, e muito menos para um local de trabalho que está evoluindo rapidamente. Em última análise, cabe aos próprios indivíduos pensar cuidadosamente sobre quais habilidades serão necessárias e como elas podem demonstrar essas habilidades aos empregadores.

No nível individual, será fundamental se preparar para um mundo de busca de emprego digital. Plataformas digitais para desenvolvimento e avaliação de habilidades de avaliação devem ocupar espaço central no processo de contratação. Elas se constituirão num diferencial competitivo num primeiro momento, mas em seguida devem compor o padrão de contratação no mercado de trabalho. No curto prazo, isso significa dedicação de tempo e cuidado à construção de uma presença on-line pessoal. Para se destacar, será preciso mostrar e validar sua experiência, estabelecer conhecimentos ao se juntarem a grupos ou postarem conteúdo, e construir redes profissionais. Os trabalhadores também se beneficiarão da compreensão e da participação nas inovações em torno de treinamento e credenciais baseados em habilidades que podem acelerar suas trajetórias de carreira. Indivíduos sem credenciais formais de educação se diferenciarão por meio de sua reputação on-line por meio de recomendações e certificações práticas.

Mas é importante destacar o papel da tecnologia para enfrentar esse desafio. A tecnologia pode ajudar os mercados de trabalho com as chamadas plataformas de talentos digitais[22], que buscam melhorar a correspondência entre trabalhadores e empregos. As plataformas de talentos on-line estão cada vez mais conectando as pessoas às oportunidades corretas de trabalho. Em 2025, eles podem adicionar US $ 2,7 trilhões ao PIB global e começar a melhorar muitos dos problemas persistentes nos mercados de trabalho do mundo. Elas devem assumir a forma de sites, aplicativos móveis ou sistemas corporativos proprietários com um grande volume de informações sobre os trabalhadores individuais e empregadores, combinando indivíduos com oportunidades de trabalho, desenvolvimento e validando competências  e produzindo assim melhores resultados de trabalho.

Essas plataformas online apoiam o aumento do PIB reduzindo o desemprego e aumentando a produtividade do trabalho. Com recursos de pesquisa e rastreio de algoritmos, as plataformas de talentos on-line podem acelerar o processo de contratação e reduzir tempo que as pessoas gastam procurando emprego. Agregando dados sobre candidatos e vagas de trabalho, apoiam a resolução de diferenças geográficas e permitem correspondências que de outra forma não seriam feitas. Da mesma forma ajudam a colocar as pessoas certas nos trabalhos certos, aumentando assim sua produtividade e a satisfação no trabalho. Também há grandes ganhos de produtividade a serem captados, desde atração de pessoas engajadas em trabalho informal e empregos formais, especialmente em economias emergentes. Ambos os efeitos devem aumentar a produção por trabalhador, elevando o PIB global em US $ 2,7 trilhões e emprego para 72 milhões de pessoas em tempo integral até 2025. Estima-se que até 2025, as plataformas de talentos on-line podem beneficiar cerca de 540 milhões de pessoas[23], ou 10% da população em idade ativa.

Um ecossistema diversificado de educação e credenciamento deve amplificar a mudança necessária para ajustar as necessidades generalizadas. Os empregadores intensificarão seus próprios esforços para treinar e treinar trabalhadores e um número significativo de esforços de autoaprendizagem por parte dos próprios candidatos, aproveitando as oportunidades on-line. Um novo ecossistema de educação e treinamento emergindo no qual algumas funções de preparação de trabalho são realizadas por instituições educacionais formais em ambientes de sala de aula bastante tradicionais, alguns elementos são oferecidos on-line, alguns criados por empresas com fins lucrativos, alguns gratuitos, alguns explorados elementos de realidade virtual e sensibilidades de jogo, e muita aprendizagem em tempo real ocorre em formatos que os candidatos a emprego buscam por conta própria. Alguns dizem que mecanismos alternativos de credenciamento surgirão para avaliar e atestar as habilidades que as pessoas adquirem ao longo do caminho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo o complexo cenário delineado para o futuro do trabalho apresenta enormes implicações para os trabalhadores. Estima-se[24] que  entre que 60 a 375 milhões de pessoas em todo o mundo precisem fazer a transição para novas categorias profissionais até 2030, com uma necessidade constante pelo desenvolvimento de novas competências  em trabalhos que envolverão uma mistura inconstante de tarefas e atividades.

Ao mesmo tempo a velocidade das mudanças nos coloca em pleno processo de transição e revisão do preconceito na contratação de quem estudou distância, para uma valoração de competências associadas aqueles que  se utilizam de ferramentas de aprendizado online, demonstrando com isso maior proatividade, iniciativa, resiliência e disciplina. Uma lição clara surge da nossa análise: a adaptabilidade – nas organizações, indivíduos e sociedade – é essencial para navegar pelas mudanças futuras. Os trabalhadores e as organizações precisam estar prontos para se adaptar. Grande parte da responsabilidade caberá ao indivíduo. É no nível individual que será preciso se adaptar à mudança organizacional e estar disposto a adquirir novas habilidades e experiências ao longo de sua vida, para tentar novas tarefas e até mesmo para repensar e reciclar. Governos e organizações podem e devem fazer muito para ajudar: facilitando os caminhos para treinamento e reciclagem, e incentivando e incentivando a adaptabilidade e as habilidades críticas e cada vez mais valorizadas de liderança, criatividade e inovação.

Então, uma questão central sobre o futuro, então, não é se, mas como e quando as estruturas de aprendizagem formais e informais evoluirão para atender às necessidades de mudança das pessoas que desejam atender às expectativas de futuro do local de trabalho.

Referencias Bibliográficas

[1] https://www.brookings.edu/wp-content/uploads/2017/01/global_20170131_future-of-work.pdf

[2] http://www.pewinternet.org/2017/05/03/the-future-of-jobs-and-jobs-training/

[3] http://www.pewinternet.org/2017/05/03/the-future-of-jobs-and-jobs-training/

[4] http://ide.mit.edu/news-blog/blog/event-recap-ai-and-future-work

[5] https://www.oxfordmartin.ox.ac.uk/downloads/reports/Citi_GPS_Technology_Work.pdf

[6] http://www.pewinternet.org/2017/05/03/jobs-training-about-this-canvassing-of-experts/

[7] Tecnologia da informação e força de trabalho dos EUA: Onde estamos e para onde vamos a partir daqui? (2017) https://www.nap.edu/read/24649/chapter/1

[8] “O estado dos empregos americanos” http://www.pewsocialtrends.org/2016/10/06/the-state-of-american-jobs/

[9] http://www.bmas.de/SharedDocs/Downloads/EN/PDF-Publikationen/a883-white-paper.pdf

[10] https://www.pwc.com/gx/en/services/people-organisation/workforce-of-the-future/workforce-of-the-future-the-competing-forces-shaping-2030-pwc.pdf

[11] http://www3.weforum.org/docs/WEF_Future_of_Jobs.pdf

[12] http://www3.weforum.org/docs/WEF_Future_of_Jobs.pdf

[13] https://www.manpowergroup.com/workforce-insights

[14] https://www.weforum.org/agenda/2016/01/what-is-the-future-of-your-job

[15] http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—dgreports/—inst/documents/publication/wcms_625866.pdf

[16] http://www3.weforum.org/docs/WEF_Future_of_Jobs.pdf

[17] https://www.mckinsey.com/mgi/overview/2017-in-review/automation-and-the-future-of-work/jobs-lost-jobs-gained-workforce-transitions-in-a-time-of-automation

[18] Recentemente, Cingapura implementou uma forma inovadora de apoio destinado a melhorar habilidades como parte de seus esforços para promover o crescimento e a competitividade em 23 indústrias. Por meio da Iniciativa “SkillsFuture”, introduzida pelo Ministério da Educação em janeiro de 2016, o governo fornece a todos os cingapurianos. 25 e acima de crédito de cerca de US $ 400, para pagar por cursos relacionados a habilidades de trabalho aprovados. Mais de 18.000 desses cursos estão disponíveis e, em dezembro de 2016, mais de 120.000 pessoas – cerca de 4% da população residente com 25 anos ou mais – usaram a iniciativa de fazer cursos, mais de 60% deles com mais de 40.

[19] Entre 1993 e 2015, os gastos com programas de treinamento de mão-de-obra diminuíram de 0,08% para 0,03. por cento nos Estados Unidos, enquanto os gastos japoneses caíram de 0,03% para 0,01%. Na Alemanha – ainda um dos maiores gastadores – os gastos com treinamento caíram de 0,57% do PIB para 0,2%.

[20] A AT & T fez uma parceria com a Georgia Tech para fornecer oportunidades para todos os funcionários se inscreverem no programa de ciência da computação on-line da universidade, que a AT & T ajudou a configurar. A AT & T oferece bolsas de estudo a todos os funcionários para participar de aulas, paga mensalidades e permite que os funcionários que não frequentam uma universidade convencional aperfeiçoem suas habilidades técnicas. Em 2014, cerca de 18% dos 1.268 alunos matriculados no programa de mestrado em ciências da computação da Georgia Tech eram funcionários da AT & T. O Walmart,  com uma força de trabalho global de quase 2,5 milhões, está realizando treinamento e reciclagem de seus funcionários nos EUA, através da sua Academia Walmart. A Starbucks firmou uma parceria com a Arizona State University, que oferece uma oportunidade para que todos os funcionários qualificados recebam seu diploma de bacharel com cobertura integral de matrículas até a graduação pelo programa de graduação on-line da ASU. A Amazon, por meio de seu programa Career Choice, reembolsa 95% das mensalidades, taxas e materiais de seus associados por hora, com apenas um ano contínuo de permanência.

[21]  https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/303335/the_future_of_work_key_findings_edit.pdf

[22] https://www.mckinsey.com/featured-insights/employment-and-growth/connecting-talent-with-opportunity-in-the-digital-age

[23] https://www.mckinsey.com/featured-insights/employment-and-growth/connecting-talent-with-opportunity-in-the-digital-age

[24] http://ide.mit.edu/news-blog/blog/event-recap-ai-and-future-work

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Porque é preciso conectar governos para enfrentar os problemas complexos da atualidade?

Das mudanças climáticas à urbanização, da desigualdade aos empregos perdidos para a automação, os maiores problemas da atualidade são complexos e conectados. No entanto, em geral, os servidores públicos ainda são forçados a tentar resolvê-los rapidamente e com recursos escassos. Uma pesquisa[1] relatada em artigo de Robyn Scott e Lisa Witter na Stanford Social Innovation Review (SSIR), buscou entender quais fatores limitavam sua eficácia e descobriu que um número considerável de respostas se enquadrava em uma única categoria: uma falta crítica de conexão – de ideias,  de colegas que enfrentaram problemas semelhantes e a parceiros que poderiam ajudar a implementar soluções. Apresento aqui algumas de suas ideias.

Innovation Road Sign with dramatic clouds and sky.

Esse padrão leva, na melhor das hipóteses, à duplicação de esforços e às despesas evitáveis ​​do contribuinte; na pior das hipóteses, leva à adoção de políticas que já provaram ser ineficazes, ou à incapacidade de adotar boas políticas, a um grande custo para a vida e os bolsos dos cidadãos. Em um mundo conectado, a criação de políticas conectadas, com todos os seus muitos benefícios, continua sendo uma exceção.

A pesquisa descobriu que a “desconexão” se desdobra em cinco categorias. Um olhar mais atento a essas categorias pode ajudar os formuladores de políticas a enxergar o desafio diante deles com mais clareza:

  1. Governos Desconectados – Existe uma “verdade” nos governos de que toda política é local e dependente do contexto. Se isso foi uma afirmação precisa, hoje é questionável. Embora toda a política deva, em última instância, ser personalizada para as condições locais, é absurdo supor que há pouco ou nada a aprender de outros países, regiões ou municípios. Três tendências, de fato, indicam que as soluções se tornarão cada vez mais cambiáveis entre os países. A primeira é que os problemas estão se tornando mais globais – pense em mudanças climáticas, refugiados, desigualdade, segurança cibernética, terrorismo e inteligência artificial. A segunda: novas tecnologias, novos modelos de negócios e novos mecanismos de financiamento – todos eles inerentemente compartilháveis ​​- sustentam cada vez mais as soluções. A terceira é que as pessoas continuam se mudando para as cidades e as cidades são muito mais parecidas do que os países.
  2. Problemas desconectados – O que a política de mudança climática pode suportar sem uma estratégia de criação de emprego? Que reforma sensata da justiça criminal não considera a educação? No entanto, mesmo dentro dos países, os departamentos e seus funcionários geralmente permanecem estrangeiros entre si, assim como as nações. Os diferentes departamentos governamentais frequentemente têm diferentes redes, diferentes jargões e, talvez de forma mais destrutiva, diferentes orçamentos. Orçamentos, uma vez alocados, são gastos dentro desse departamento. A alocação de orçamento torna-se assim um jogo de soma zero. Um departamento de educação pode precisar envolver serviços sociais para ajudar a reduzir a frequência escolar precária. Mas, mesmo que haja uma economia líquida se todas as economias orçamentárias se acumularem para o departamento de educação, os serviços sociais têm pouco incentivo para se envolver.
  3. Servidores Públicos Desconectados – O isolamento dos governos e dos departamentos governamentais é causado e reforça o isolamento das pessoas que trabalham no governo, que têm poucos incentivos – e muitos desincentivos – para compartilhar o que estão trabalhando. Como a maioria das grandes instituições, o governo é avesso ao risco. Mas, ao contrário das corporações, há poucos ganhos a serem obtidos no governo, mesmo para aqueles que assumem riscos com sucesso. Não há recompensa financeira. E com os meios de comunicação ávidos por histórias que critiquem o governo, as penalidades para o fracasso são altas. Mesmo projetos amplamente julgados como bem-sucedidos podem ser duramente criticados; o governo é complicado e as decisões políticas sempre exigem compensações. Por isso, é mais seguro ficar em silêncio. Mas esse silêncio tem um alto custo.
  4. Cidadãos Desconectados – O governo sem engajamento cidadão é como um restaurante sem cardápio. Há áreas de progresso cada vez mais visíveis em superar as desconexões do governo, sendo o engajamento cidadão um deles. Ainda estamos nos estágios iniciais, mas as ferramentas do setor privado, como o design centrado no ser humano e o design thinking, se tornaram palavras-chave do governo. E as plataformas que permitem novos tipos de envolvimento dos cidadãos – desde o orçamento participativo até os aplicativos que as pessoas usam para denunciar buracos – estão surgindo cada vez mais em todo o mundo. Estamos esperançosos de que esta tendência acabará por gerar mais compartilhamento entre os governos. Quando os cidadãos de um país veem o que os cidadãos de outro país estão obtendo de seus governos – e têm canais para exigir o mesmo de seus representantes -, é mais provável que os governos atendam às lições de outros países.
  5. Ideias Desconectadas – De acordo com os próprios dados do Banco Mundial, um terço de seus relatórios nunca é lido, nem mesmo uma vez. As fundações e a academia despejam dezenas de milhões de dólares em pesquisa de políticas com poucos canais direcionados para alcançar os formuladores de políticas (no Brasil nem esse movimento é notado); eles também tendem a produzir e fornecer informações em formatos que os formuladores de políticas não acham úteis. As pessoas no governo, como todos os outros, estão frequentemente em seus telefones celulares e com pouco tempo. Pior, algumas informações nunca são captadas: o governo do Reino Unido (sem dúvida um dos governos mais bem administrados do mundo) perdeu recentemente £ 2,5 bilhões em relatórios que encomendou a cada ano, deixando servidores públicos do Reino Unido vasculharem a Internet em busca de registros “fantasmas”. quando eles precisavam deles. E a informação, mesmo que exista e mesmo que seja lida, não é suficiente. Para adotar ou adaptar adequadamente uma política, os funcionários públicos precisam conversar com aqueles com experiência em implementação – pessoas que experimentaram e superaram os desafios ocultos de fazer as coisas acontecerem.

Quando a conexão libera recursos para novas iniciativas – O países da OCDE gastam cerca de 40% de seu PIB com o trabalho do governo (cerca de US $ 16 trilhões). Estima-se  que o total global esteja em torno de US $ 30 trilhões. De acordo com a pesquisa, se políticas mais conectadas pudessem ajudar apenas 1% do gasto total do governo a ser implantado 50% mais efetivamente – uma ambição razoável -, seriam liberados mais de US $ 100 bilhões por ano globalmente em economia ou criação de valor.

As condições estão prontas para que isso aconteça, pelas razões descritas acima e porque os millennials, que compartilham por natureza, estão começando a assumir funções de alto escalão do governo e exigindo que as coisas sejam feitas de forma diferente. Não será fácil. Mas há muitas maneiras de começar que nem exigem grandes mudanças ou reformas.

liderança inovacao

Aqui estão alguns:

Amplie o conjunto de talentos do governo – Muitos dos funcionários públicos mais eficazes que conhecemos passaram algum tempo no setor privado ou na sociedade civil. Confrontado com a expressão “É assim que as coisas sempre foram feitas”, eles encontram várias maneiras de contornar o sistema.

Proteger talentos  – O inovador MindLab da Dinamarca envia funcionários públicos com visão de futuro para a ação nas agências do governo para interromper o pensamento antiquado e ineficiente. Isso ajuda as agências  a sobreviverem à inércia institucional e à resistência.

Comunicar o lado positivo do risco – A agência de inovação da Suécia, Vinnova, deixa bem claro que obterá taxas de erros semelhantes às de capital de risco em seus investimentos ousados ​​e em estágio inicial. Definir essa expectativa torna muito mais fácil para a agência compartilhar falhas quando elas acontecem e falar sobre (e implementar) lições aprendidas.

Use dinheiro para impulsionar a colaboração – O departamento de saúde de Baltimore teve sucesso significativo com o “orçamento global”. Sob essa abordagem, os hospitais não são pagos de acordo com o número de procedimentos que realizam ou pacientes que recebem. Em vez disso, eles recebem um orçamento anual e são instruídos a gastá-lo como quiserem. A lógica é incentivar os hospitais a gastar dinheiro de forma mais eficiente. Desta forma, torna-se mais barato para o departamento de saúde gastar seu dinheiro em colaborações com outros departamentos que possam manter as pessoas saudáveis e fora dos hospitais.

Aproveite o melhor da tecnologia para compartilhar e aprender – O objetivo é fazer parte da solução nessa frente. Então, para complementar e reforçar apenas esses tipos de estratégias, foi criada uma plataforma online que conecta funcionários públicos em todos os níveis do governo a pessoas que lidam com os mesmos problemas em outros lugares. Através da plataforma é possível reunir ideias, pessoas e evidências de maneira que esperamos encorajar a ação.

Referencia:

[1] https://idging_governments_bordersssir.org/articles/entry/br

 

Bombinhas aposta na Inovação para melhorar a qualidade do ensino

Inovação é uma das diretrizes estratégicas do Plano Municipal de Educação

Bombinhas não terá a qualidade da educação de que precisa – e que os estudantes tem direito – apenas com melhoras incrementais. A inovação é uma estratégia  do município para o cumprimento dos direitos de aprendizagem, e consta da agenda política da educação do município, inscrita inclusive no Plano Municipal de Educação.

Inovação está contida na visão e nos valores da rede municipal de ensino

Inovação está contida na visão e nos valores da rede municipal de ensino

É sabido que não se chega a um lugar de excelência e qualidade para todos apenas fazendo mais do mesmo. É preciso fazer mais e melhor.

Desde o início deste ano, A Secretaria de Educação vem promovendo a reflexão na rede de ensino sobre a importância da inovação. Como parte central da estratégia de inovação, foi criado o Laboratório de Inovação em Tecnologia e Metodologia em Inovação Educacional.

Inovação é uma Diretriz Estratégica do Plano Municipal de Educação de Bombinhas.

Inovação é uma Diretriz Estratégica do Plano Municipal de Educação de Bombinhas.

O Laboratório de Inovação abriu espaço na agenda para a importância da inovação em educação. Além de infraestrutura tecnológica, o Laboratório abrigará e apoiará várias iniciativas inovadoras dos professores da rede.

A ideia é fomentar o processo de inovação educacional nas escolas. Além de ferramentas tecnológicas, serão ofertadas aulas de reforço para estudantes, capacitações para professores e processos de avaliação on-line. Apesar da ênfase no uso da tecnologia, o laboratório pretende abrir espaço para metodologias pedagógicas inovadoras, não necessariamente ancoradas na tecnologia.

Projeto Mais Matemática – Entre as ações que estão em curso e que contarão com o apoio do Laboratório está o Projeto Mais Matemática.

Objetivo do Projeto Mais Matemática é inovar para melhorar o aprendizado em matemática

Objetivo do Projeto Mais Matemática é inovar para melhorar o aprendizado em matemática

O objetivo do projeto “Mais Matemática” é inovar para melhorar o aprendizado em matemática, e além da Olimpíada, várias outras ações estão em andamento, como o uso da plataforma Khan, o acompanhamento e premiação para os melhores estudantes da Olimpíada Brasileira de matemática – OBMEP e capacitações para professores no uso de ferramentas tecnológicas.

Projeto Língua, Linguagens & (Con)Textos – Ensinar a escrita, escrever e aprender com as infinitas possibilidades que o mundo da escritura oferece é a proposta do Projeto Língua, Linguagens & (Con)Textos, que a Secretaria da Educação de Bombinhas se propõe a construir com os alunos e professores do Município.

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Projeto Língua, Linguagens & (Con)Textos quer desafiar a autoria, através da autonomia e instigar a imaginação, transformando a diversidade de idéias em (con)textos, que contemplem a pluralidade de estilos.

A missão do projeto é desafiar a autoria, através da autonomia e instigar a imaginação, transformando a diversidade de idéias em (con)textos, que contemplem a pluralidade de estilos. Além disso,  compreender os valores e a proficiência do ensinar pela escrita, aplicar atividades relacionadas com a escritura, avaliar os resultados dessas ações afirmativas.

Desde agosto, desse ano, professores e alunos da Rede Municipal de Ensino, de 5° a 9°s anos estão vivenciando os desafios de ensinar e aprender com a escrita, de despertar para a autoria e transformar ideias em contextos literários. O concurso despertou uma pluralidade de estilos e mais de 800 alunos estão escrevendo, em prosa ou poesia o que veem, observam, percebem e sentem sobre lugar onde vivem – Bombinhas. Suas impressões e registros históricos compõem a base da Olimpíada Municipal da Língua Portuguesa.

A Olimpíada, embora obedeça a um cronograma de eventos, consiste em todo um processo de ensino, de aprendizagem e de criação, que, mesmo em meio a uma série de atividades, não tem a pretensão de encerrar-se em ações preestabelecidas, pelo contrário, quer motivar a comunidade escolar, alunos e professores a permanente aprendizagem, apreensão e aquisição das normas, variações e infinitos contextos que permeiam a Língua Portuguesa e a sua conseqüente colaboração para a interpretação, a compreensão, reflexão e leitura das demais áreas do conhecimento e da própria Língua.

A etapa escolar já está praticamente cumprida, sendo seguida, em outubro, pela seleção municipal de textos. Em novembro, a Olimpíada terá cumprido sua tarefa e apontará alguns vencedores do concurso, como em toda competição desse porte, mas, certamente, afora os 15 finalistas, apontará inúmeros jovens autores, escritores competentes, com satisfatório desempenho linguístico, os quais estarão, suficientemente, motivados a participar de outros processos avaliativos que têm por objetivo transformá-los em cidadãos críticos e com autonomia no uso da sua língua brasileira, em favor do acesso a sua qualificação profissional e elaboração de um discurso competitivo e emancipador.

O evento integra o conjunto de ações planejadas para serem desenvolvidas ao longo da execução do Projeto Língua, Linguagens & (Con)Textos, um braço didático-pedagógico, da Secretaria Municipal da Educação, dirigido pelas professoras Karime Franzoi e Susana Pinheiro, e coordenado pela professora Maria Inês Amaral, o qual visa a manutenção e incentivo da qualificação do ensino da língua materna, voltado a processos de inovação desse ensino, que passam pela elaboração e aplicação de instrumentos avaliativos de caráter desafiador, provocador e instigador a serviço do proficiente manejo da língua padrão alcançando o universo diversificado de contextos que ela possibilita que sejam inventados, produzidos e reproduzidos.

Laboratório de Inovação em Tecnologia e Metodologia Educacional – Conceitos e Desafios

Bombinhas, agosto de 2014 – A inovação é um elemento-chave do mundo em que vivemos, e  é essencial pensar como é possível inovar em educação.

A Secretaria de Educação de Bombinhas apostou na ideia e abriu espaço na agenda educacional para o processo de inovação, como elemento central do processo de melhoria da qualidade educacional. Foi nesse contexto que foi imaginado a criação de Laboratórios de Inovação em Tecnologia e Metodologia Educacional nas Escolas do município.

A proposta do Laboratório se desenhou a partir de importante reflexão sobre o processo de busca pela qualidade. O debate sobre a busca da qualidade jogou luz em  várias questões, que são objeto de reflexão coletiva com a rede municipal de ensino, a partir de sua prática:

  • Como reconfigurar espaços de aprendizagem que favoreçam o conhecimento mais profundo e o desenvolvimento das habilidades essenciais para o mundo do século XXI?
  • Como projetar ambientes de aprendizagem que proporcionem condições efetivas para que os estudantes possam prosperar no século 21?

Além disso, a proposta do Laboratório agregou vários conceitos, que estruturaram sua proposta. A ideia de aprender fazendo e estar aberto ao processo de inovação a partir de ação norteia o projeto desde a sua gênese.

Inovação educacional, definida como qualquer mudança dinâmica que tenha como objetivo agregar valor aos processos educacionais que promovam resultados mensuráveis em termos de desempenho educacional.

Liderança, fator essencial para direcionar mudanças de paradigmas e para sustentá-las, e para garantir que a aprendizagem permanece no centro do processo de inovação. Isso requer visão, mas também design e estratégia para implementá-lo.

Educação Permanente, entendida aqui como desenvolvimento profissional das equipes de aprendizagem é fundamental para buscar os conhecimentos e desenvolver as habilidades necessárias para orquestrar as atividades de ensino e aprendizagem, a forma de conteúdo e recursos de aprendizagem, e tornar-se permanente o processo de melhoria do processo.

Avaliação, como eixo necessário para o processo de verificação de aprendizagem e validação das técnicas e metodologias desenvolvidas. Informações sobre a aprendizagem que ocorre devem ser constantemente elemento de feedback para as diferentes partes interessadas, e nas estratégias de revisão de estratégias e de reflexão para a promoção de inovação.

Fortalecimento de parcerias, já que o ambiente de aprendizagem contemporânea deve desenvolver fortes ligações com outros parceiros, de modo a estender suas fronteiras, recursos e espaços de aprendizagem, trazendo como parceiros a comunidade local, empresas, instituições culturais, e outras instituições educacionais, inclusive de ensino superior.

Dessa forma, é fundamental transformar a Rede Municipal de Ensino de Bombinhas também numa grande rede de aprendizagem organizacional, onde os parceiros mais importantes são exatamente aqueles mais próximos, ou seja, o professor da sala de aula ao lado, a escola mais próxima, e o município como um todo.  É preciso forjar sinergias através de redes e comunidades de prática. Para inovar e para sustentar a mudança é preciso superar o isolamento através do trabalho com os diferentes atores da comunidade escolar.

Por tudo isso o LITEM adotará as seguintes estratégias:

  1. Aprendizagem personalizada: Cada estudante recebe aprendizado personalizado em acordo com seu itinerário e tempo formativo;
  2. Disponibilidade de diversas fontes de conhecimento: Os alunos podem adquirir conhecimento, sempre que precisar de uma variedade de fontes: livros, web, etc.
  3. Aprendizagem em grupo colaborativo: Os alunos aprendem juntos e colaborativamente em projetos autênticos;
  4. Avaliação para a compreensão mais profunda dos processos de inovação – Os testes devem avaliar a compreensão mais profunda dos alunos, na medida em que o seu conhecimento é integrado, coerente e contextualizado

Da mesma forma, o LITEM buscará desenvolver as seguintes competências, sem prejuízo de outras,  essenciais ao mundo complexo em que vivemos:

  1. Gerar, processar e classificar informação complexa;
  2. Pensar de forma Sistêmica e crítica;
  3. Tomar decisões em cenários de realidade;
  4. Formular perguntas relevantes sobre distintos assuntos;
  5. Adaptar-se e Ser flexível ante informação nova;
  6. Ser criativo;
  7. Justificar e resolver Problemas do Mundo Real;
  8. Adquirir uma compreensão profunda de Conceitos Complexos;
  9. Produzir informação no mundo comunicacional e redes sociais;
  10. Trabalhar em equipe, desenvolver habilidades sociais e de comunicação;
  11. Estabelecer bases sólidas do processo de aprendizagem permanente, em busca de autonomia e empreendedorismo;
  12. Ser resiliente

A criação do Laboratório de Inovação em Tecnologia e Metodologia Educacional  – LITEM pela Secretaria de Educação de Bombinhas é uma aposta ousada de criação de espaços que possibilitem a experimentação e reflexão sobre esses e outros desafios, no âmbito da gestão escolar do município.

Lições da Logística da Guerra no Iraque

Li um interessante artigo na Harvard Business Review de novembro de 2003 (íntegra aqui). O artigo é escrito por Diane K. Morales (na época vice-subsecretária da Defesa dos EUA para a logística) e Steve Geary (na época integrante da equipe da vice-subsecretária adjunto de Defesa dos EUA para a logística). O artigo traça em linhas gerais algumas lições que a Guerra do Iraque trouxe para a logística de guerra e logística em geral.  Abaixo uma adaptação grosseira do artigo:

O líder experiente sabe que mesmo a estratégia mais brilhante é apenas tão boa como a sua execução (Diane K. Morales).

Em suma, os planos de batalha aparentemente promissores no quadro de planejamento podem ser desfeitos no cenário de guerra  por meio de operações desajeitadas ou por apenas um elo perdido na cadeia de abastecimento logístico.

Este foi o medo de setores do planejamento quando Tommy Franks delineou os planos de ataque para a Operação Iraqi Freedom. De acordo com a doutrina militar convencional, Franks deveria ter enviado mais de 250 mil soldados marchando através do Vale do rio Eufrates, apoiado por uma montanha de material (roupas, medicamentos, alimentos, combustível, e tudo o mais que uma linha necessita), que seguia por linhas seguras de abastecimento.

Em vez disso, Franks imaginou um enxame (a chamada Força Rápida), sensível, inteligente e capaz de identificar e remover as ameaças rapidamente. Trata-se de uma mudança estratégica análoga a realizada por muitas empresas nos últimos anos, em que a velocidade é mais importante que a massa/volume, sendo que tal mudança teve profundas implicações para a logística da operação.

Tornar a colaboração uma realidade

O ideal da chamada cadeia de suprimentos (Supply Chain) para a maioria das empresas é a colaboração verdadeira entre todos os atores que integram a gestão de logística (desde a saída do produto e durante  todo o caminho até o cliente, até mesmo dentro de suas operações).

Para o Departamento de Defesa Americano, o desafio era conseguir “operações combinadas”, com a integração dos quatro ramos das forças armadas. Até a Guerra do Golfo Pérsico em 1991, as forças americanas ainda estavam operando logísticamente em faixas separadas, como as diferentes divisões de uma grande corporação.

Para tornar as Forças mais dependentes uma das outras, e facilitar a comunicação entre elas, criamos uma única estrutura integrada e responsável pela logística. Isso significou que todas as forças terrestres na Operação “Iraqi Freedom”- usaram ​​uma rede de distribuição única.

Em grande parte, contamos com o apoio de um setor privado de fabricantes, distribuidores e fornecedores para fornecer todo o material necessário às forças combinadas com a velocidade necessária.   Estimamos  que mais de 85% de todo o material de sustentação da operação mudou-se para o teatro de operações em estruturas de distribuição civil.

Gerenciar o fluxo, e não o estoque

Líderes militares aprenderam uma lição dolorosa durante a Guerra do Golfo (1991). Planejadores pediram 60 dias de suprimentos a ser acumulado no teatro de Operações, antes do ataque ao solo. Descobriu-se que era possível empurrar essa quantidade enorme de material, mas literalmente não era possível ver o conteúdo dos contêineres, uma vez que estavam em trânsito ou no teatro.

O resultado foi muitos links quebrados na logística de abastecimento. Isso significou que material armazenado em mais de 40.000 contêineres, a metade dos suprimentos enviados para a região, nunca foi usado.

Ressalta que a experiência de uma verdade que logística comercial conhece bem: o estoque bem abastecido que não chegar onde ele é necessário não agrega valor ao processo.

A excelência da logística consiste em saber exatamente o que você tem, a condição e localização dos itens, se estão em ordem, em trânsito, ou no teatro de operações, e gerenciar o fluxo de material à luz das mudanças nos padrões de demanda e necessidades do cliente.

É um grande desafio, mas o DoD foi capaz de superá-lo. Mesmo os campos de batalha mais fluida têm pelo menos algum grau de previsibilidade. A chave é combinar esta previsibilidade com a adequada quantidade de suprimentos de reserva em uma linha de distribuição consolidada. O apoio adequado foi entregue, onde foi necessário, quando foi necessário, e os resíduos associados de suprimentos não utilizados foi evitado.

Vá com tecnologia

O maior desafio durante a Operação Iraqi Freedom foi manter a logística com forças que se movem rapidamente.

Não foi tanto a dificuldade e a capacidade de fornecer, mas localizar onde eles estavam se movendo.

Para superar esse desafio foi necessário uma combinação de tecnologias de informação. Cada unidade de combate foi equipado com transponders, permitindo que os líderes de combate e logística no Comando Central fossem capazes de rastrear o movimento das tropas em tempo real.

Da mesma forma, as etiquetas de identificação de radiofreqüência (RFID) foram anexadas em todos os recipientes de material de entrada em pontos de embarque. Essas tags foram rastreadas em todo o mundo e ao longo da linha das tropas. Esses dados foram integrados em um quadro operacional comum, o que permitiu a coalizão conseguir informações em tempo real em toda a cadeia de gestão logística.

O setor militar é muitas vezes um dos primeiros usuários de tecnologias que o setor comercial é ainda não explora em razão de limitação de custos e benefícios potenciais. A tecnologia RFID foi um bom exemplo disso, mas grande parte da implantação bem-sucedida desta tecnologia foi baseada em aplicativos e serviços disponíveis comercialmente. Durante a Operação Iraqi Freedom, os usuários autorizados, operando a partir de sistemas de computador seguros em locais remotos, puderam monitorar o fluxo de materiais pelos checkpoints críticos no Iraque. Esta e outras experiências semelhantes confirmou que as tecnologias de ponta comercial, selecionadas com prudência  e devidamente aplicadas, poderiam fornecer apoio a decisão de maneira rápida e confiável.

Esforços mais recentes do Departamento de Defesa foram projetados para promover economia, melhorar a eficácia e oferecer agilidade ao processo de gestão logística. Na Operação Iraqi Freedom, ampliou-se a capacidade de gerenciar a logística de forma mais eficaz, o que foi crucial para o sucesso da coalizão no campo de batalha.

Como disse o general Franks, “a velocidade mata … o inimigo.”

Facilitando a vida de quem usa transporte coletivo

A Metropolitan Transportation Authority de Nova York anunciou que dados de ônibus, transmitidos em tempo real a partir de transmissores de GPS estão disponíveis ao público de Nova York.

As informações podem ser obtidas de várias maneiras: em um mapa do google, por SMS e por QR code em cada parada. Veja mais sobre a experiência de NY aqui, aqui e aqui.

Em Boston também há essa facilidade, sendo que houve um esforço da Administração Pública em disponibilizar as informações em dados abertos (falarei mais sobre esse assunto  – dados abertos – em outra postagem, tão importante para o processo de transparencia e Accountability) para que desenvolvedores de aplicativos pudessem criar aplicativos  para iPhone, iPod Touch, dispositivos IPAD e Android, como o http://catchthebusapp.com

Com o aplicativo, é possível saber quando o ônibus vai estar na sua parada, usando rastreadores GPS em cada ônibus, salvar o seu ônibus preferido ou as paradas mais freqüentes para facilitar o acesso e ainda pesquisar paradas de ônibus em uma exibição Google Map, facilitando encontrar a parada mais próxima.

 

O desafio de facilitar a vida de quem usa transporte coletivo - Exemplos não faltam - na foto, o Transmilenio, de Bogotá!

O desafio de facilitar a vida de quem usa transporte coletivo - Exemplos não faltam - na foto, o Transmilenio, de Bogotá!

Paradas do ônibus que tuitam, contam histórias e informam quanto tempo falta para o próximo ônibus?

Sim, isso existe. mais precisamente na Noruega. São mais de 4000 paradas do ônibus que tuitam, gravam histórias e indicam o tempo que falta para o próximo ônibus via QR-Codes (saiba mais sobre QR Code aqui).

Uma empresa de transportes norueguesa, Kolumbus, utiliza QRcodes para permitir que os passageiros deixem histórias um para o outro. Quando um passageiro passa por qualquer uma das mais de 4.000 paradas de ônibus eles encontram um QR code, que quando digitalizada e conectada a um aplicativo do iPhone ou do Android, associa-os a informação sobre os horários, e permite deixar uma mensagem no ponto de ônibus.

Cada parada contém um código único, assim com a informação sobre os horários e os contos são específicos do site. Através do aplicativo, os passageiros podem deixar mensagens sobre experiências que tiveram na área,  anedotas sobre os lugares que vão ou deixar uma mensagem para um amigo ou familiar.

Além disso, cada vez que um ponto de ônibus é digitalizado, é possível ‘tuitar’ ao mundo que uma nova história foi deixada lá. Em essência, é uma mistura do Facebook e Foursquare de paradas de ônibus, onde os usuários deixam mensagens, estórias e memórias e, ao mesmo tempo ficam sabendo quanto tempo falta para o próximo ônibus.

AS QR Codes são geo-localizadas através de um mapa on-line , onde os participantes podem acompanhar seu objeto, mesmo que ele tenham passado.  O QRCode também pode atualizar os proprietários anteriores sobre o seu progresso através de um feed do Twitter ao vivo (que é único para cada objeto inserido no sistema).

A Kolumbus é uma empresa de transporte público do condado Rogaland, na Noruega, servindo o público com ônibus e vias de alta velocidade em barco nas áreas de Stavanger, Haugesund, e os os fiordes de Dalane e Jæren.

Em tempo: A Metropolitan Transportation Authority de Nova York anunciou que dados em tempo real a partir de transmissores de GPS em ônibus estão disponível ao público de Nova York.

As informações podem ser obtidas de várias maneiras: em um mapa do google, por SMS e por QR code em cada parada. Veja sobre a experiência de NY aqui, aqui e aqui. mas vou vazer mais adiante uma postagem específica sobre o uso dessa tecnologia nos Estados Unidos.

Mais estradas, menos congestionamento, certo? Errado!

Em termos de mobilidade urbana, a desorganização cobra seu preço. Um tempo atrás, o Christain Science Monitor publicou um artigo interessante sobre um dos temas mais interessantes da gestão da política de mobilidade urbana: o chamado Paradoxo de Braess.

Nesse artigo, o matemático Dietrich Braess provou uma tese polêmica e que deixaria muitos “especialistas de botequim” da área de transporte boquiabertos: às vezes, a construção de um novo caminho  – até mesmo um de alta velocidade – pode diminuir a velocidade do tráfego de toda uma região. (Veja a página da Wikipedia sobre o assunto)

Outro artigo que fala do assunto é o da Sightline Daily. Este não é realmente apenas um paradoxo no sentido estrito. É  uma daquelas coisas que quando faladas em uma campanha eleitoral, por exemplo,  soa completamente implausível, mas ainda assim a tese é totalmente verdadeira.

O inverso é igualmente verdadeiro: por vezes, o fechamento de uma via pode acelerar o tráfego de uma determinada região.

A cidade de Seul, na Coréia, por exemplo, identificou uma rodovia de alta capacidade que tinha essa estranha propriedade.(veja mais sobre este caso aqui). A cidade acabou com a rodovia e – quase como mágica – os congestionamentos diminuíram, e o ambiente urbano ficou sensivelmente melhor com a urbanização feita no lugar da rodovia.

Segundo os pesquisadores, outras cidades poderiam se beneficiar da mesma abordagem.  Um artigo dos pesquisadores Hyejin Jeong, do Departmento de Física da Korea Advanced Institute of Science and Technology, e Michael T. Gastner, do Departamento de Ciência da Computação da Universidade do Novo Mexico trata do assunto.

O artigo destacou um estudo intitulado” O Preço da Anarquia nas Redes de Transporte “, que aborda alguns exemplos reais de cidades que podem se beneficiar seguindo o exemplo de Seul.

Segue um trecho interessante do artigo :

A Sociedade tem que pagar um preço de anarquia para a falta de coordenação entre seus membros. Aqui nós avaliamos esse preço de anarquia, analisando os tempos de viagem em redes de estradas de várias cidades grandes. Nossa simulação mostra que os motoristas descoordenados possivelmente desperdiçam uma quantidade considerável de seu tempo de viagem.  Assim, bloquear certas ruas parcialmente pode melhorar as condições de tráfego.

Os autores definem o “preço da anarquia”, como a diferença entre o “ótimo social” (o melhor desempenho possível do sistema viário, se todos cooperarem) e do “equilíbrio de Nash” (perfermance do mundo real, em que todos os atos  em seu próprio interesse, sem nenhuma consideração real para o bem comum). É, essencialmente, a quantificação de uma falha de mercado, em que as decisões individuais racionais levam a resultados ridiculamente irracional. (parênteses meu: “falha de mercado? Quer dizer que o mercado pode falhar? rsrs)

Os autores utilizaram alguns, mas não muito complicados métodos, para calcular o “preço da anarquia” nas redes rodoviárias de Londres, Nova York e Boston.

E descobriram que a anarquia pode aumentar o tempo de viagem em até trinta por cento.

Aparentemente, quando as pessoas lotam os percursos mais rápidos, e então eles podem diminuir de viagem para todos.

Tão importante quanto isso, os autores identificam ruas específicas que, se eliminadas, poderiam reduzir o “preço da anarquia” e melhorar os tempos de viagem.

No mapa de Londres (veja as imagens no artigo), as linhas pretas são as rotas negativas: fechá-las aos carros pode significar, de acordo com a pesquisa, que o tráfego vai melhorar! As linhas vermelhas são as vitais: fechar as linhas vai significar um tráfego muito pior. Ruas azuis – a grande maioria – pode ser cortada com nenhuma mudança significativa no tempo de viagem.

Basta pensar: uma análise cuidadosa de tráfego matemático considera que a maior parte das artérias urbanas são mais ou menos irrelevante para o tempo de viagem em geral.

Os autores também analisaram Manhattan e em Boston, com resultados bastante semelhantes.

Esta pesquisa na minha avaliação,  ajudam a desconstruir a idéia de que o único caminho bom para tornar o tráfego mais rápido é construir mais e cada vez maiores estradas mais largas, com grandes e caros viadutos. E vai ao encontro de uma discussão política mais ampla, numa linha próxima a das Cidades Educadoras, que é tratada pelo Blog do Fachini: – Afinal de contas, que cidade queremos para nós e nossos filhos?

Tecnologia e a questão urbana – dois exemplos

Nesta última viagem que fiz a foz do Rio da Prata (Montevideo, Punta del Este e Buenos Aires), talvez pela aproximação com o tema, meu radar alcançou alguns bons exemplos de uso da tecnologia na questão urbana.

O primeiro exemplo foi a possibilidade chamar os taxis através de SMS de telefones celulares em Montevideo.

Além da objetividade e rapidez, a ação  garante acessibilidade as pessoas com deficiência auditiva.

Outro exemplo foi inclusão das praças de Buenos Aires no Facebook. Com essas páginas, se observa a aproximação da comunidade local com tais praças, e novamente a agilidade na obtenção de informações sobre a necessidade de reparos, da agenda cultural e esportiva de tais espaços, proporciona aproximação.

Plaza Intendente Alvear (em frente ao Cemitério da Recoleta em Buenos Aires) no Facebook!

Esses dois pequenos e simples exemplos dão contorno para a revolução que o uso das tecnologias está proporcionando na vida cotidiana das pessoas.