A educação é melhor nas Democracias?

Um artigo no Washington Post de 2017, escrito por Sirianne Dahlum e Carl Henrik Knutsen relata pesquisa recente baseada em dados de cem países, que mostram algo assustador: de acordo com o estudo, as democracias não oferecem melhor educação do que países onde não há o compromisso de agradar o eleitorado.

O artigo refuta tese antiga no campo da ciência política: Muitos cientistas políticos acreditam que como os eleitores se preocupam com o futuro de seus filhos, os políticos democráticos deveriam ter fortes incentivos para construir escolas, reduzir taxas, matricular crianças e assim ter um sistema educacional de melhor qualidade. Em autocracias, sem essa responsabilidade perante os eleitores, deveriam carecer tais incentivos e o sistema educacional tenderia a ser de pior qualidade. Na melhor das hipóteses, os autocratas poderiam oferecer educação universitária que beneficiasse os filhos das elites que os apoiam. E, de fato, de acordo com as evidências, em países democráticos, mais crianças vão à escola.

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Mas na pesquisa realizada pelos autores, publicada em artigo no World Development,  essa sabedoria convencional foi desafiada. Embora esteja correto que as democracias ofereçam mais educação aos seus filhos, as democracias não oferecem melhor educação. Em outras palavras, a escolaridade que as crianças recebem nas democracias não é, em geral, de maior qualidade do que a das crianças que vivem em autocracias. De fato, relatórios recentes mostram que uma proporção assustadoramente grande de escolas em todo o mundo não consegue ensinar nem mesmo as habilidades mais básicas de alfabetização. Os autores sugerem uma razão simples para essa descoberta surpreendente:

Os eleitores têm dificuldade em responsabilizar os políticos pelas políticas educacionais. Para responsabilizar os políticos, os eleitores devem ser capazes de rastrear os resultados aos quais se importam com políticas específicas. Poucos eleitores comuns estão familiarizados com os detalhes das reformas educacionais que supostamente “melhoram a qualidade”; nem são capazes de avaliar esses efeitos.

Os eleitores têm dificuldade em responsabilizar os políticos pelas políticas educacionais que conduzem. Para responsabilizar os políticos, os eleitores devem ser capazes de rastrear os resultados aos quais se importam com políticas específicas. Poucos eleitores comuns estão familiarizados com os detalhes de supostas “reformas educacionais que melhoram a qualidade”, nem são capazes de avaliar esses efeitos. Mesmo os especialistas em educação não sabem ao certo se medidas como a redução do tamanho das turmas ou o dever de casa realmente afetam os resultados da aprendizagem. Mesmo que os pais entendam que seu filho esteja recebendo uma educação inferior, quem deve ser responsabilizado – o professor, o diretor, o governo local, o governo estadual ou o governo federal? Assim como é menos provável que os eleitores vejam ou sejam capazes de avaliar essas mudanças, da mesma forma os políticos têm muita dificuldade em explicar e receber crédito por essas reformas e transformar isso em dividendo político. Como resultado, os políticos democráticos podem priorizar apenas soluções de “quantidade de educação”, ao invés de qualidade da educação.

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Assim, é importante observar uma diferença muito importante nesse cenário: não é do interesse dos políticos nas democracias tomar medidas que levem a uma educação de maior qualidade, mas sim realizar projetos e ações que “pareçam” levar a uma educação de maior qualidade, o que tende a gerar tal dividendo político.

A pesquisadora Lucy Crehan, autora do livro “Cleverlands”, tem escrito bastante sobre o assunto e afirma que “Se parecerem que os políticos estão fazendo algo útil, fica em segundo plano se esse ‘algo’ foi bem-sucedido ou falhou em outros momentos ou em outros lugares – os eleitores nitidamente não conseguem saber a diferença.

Isso leva a situações em que os políticos buscam apenas criar factóides quando pensam no tema educação ou, pior do que isso, políticas que acabam gerando resultados aleatórios ou até mesmo no oposto do que pretendem fazer.

É preciso entender esse fenômeno, pois é fato que em geral, políticos em democracias continuarão dar ênfase apenas naquilo que acreditam que vai impressionar os eleitores. Não podemos simplesmente cruzar os braços, denunciar esse fenômeno e esperar que apenas os políticos com coragem e convicção política suficientes façam o que é preciso fazer em educação.

Precisamos “hackear o sistema”, como ouço bastante no meio da inovação – o que implica em aumentar nossa capacidade de desenvolver estratégias que além de ser baseada em evidências e dados, também sejam impressionantes aos olhos dos eleitores, e tenham maior probabilidade de efetivamente melhorar a qualidade da educação. Precisamos proteger a nós mesmos e nossos filhos de reformas educacionais populistas e de anti-reformas. Temos que ter coragem para fazer o que é preciso ser feito e ter propostas concretas, factíveis e impressionantes. E para tornar isso possível, um número suficiente de pessoas que se preocupam com a educação precisa conhecer, pensar e se engajar em debates informados sobre pesquisa em educação e política educacional.

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Pesquisadores que estudam reformas e práticas efetivas, portanto, têm mais uma razão importante para tornar suas descobertas acessíveis e relacionáveis ao público. Precisamos entender esse fenômeno e fazer uma autocrítica – a verdade é que temos falados apenas para convertidos! Precisamos fazer mais! É preciso convergir na direção de ofertar aos políticos alternativas concretas, científicas e impressionantes, onde os políticos não precisem escolher entre popularidade, reformas educacionais sensata ou simplesmente enfeitar o pavão e mudar em perfumaria e não fazer nada de relevante.

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Como a atual Cultura Escolar pode estar fragilizando nossa Democracia?

Precisamos utilizar todas as nossas energias para transformar o atual tóxico ambiente político nacional num novo e revigorado ecossistema político e para isso é central articular uma visão mais inspiradora e inovadora de nossas escolas públicas. Essa nova visão inclui a recriação de escolas como laboratórios de democracia, recrutando jovens para atuar com educadores e membros da comunidade local como parceiros na construção da democracia que nosso país tanto precisa quanto merece.

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A atual crise política abre uma oportunidade para as escolas catalizarem o papel de formação e engajamento de nossos jovens como atores políticos legítimos que podem nos ajudar a ressignificar a prática e os valores associados à democracia. Esse é o momento de transformar as escolas em faróis da Democracia, garantindo que as escolas se concentrem em trabalhar a educação nas comunidades e territórios em que estão localizadas, construindo projetos políticos pedagógicos relevantes para a vida dos alunos e criando uma cultura democrática dentro das paredes das escolas e em seu entorno. Quando afirmo que as escolas devem se transformar em faróis da democracia, na verdade também estou dizendo que atualmente elas não o são, e isso nos leva a refletir em que medida tal fato tem participação na própria crise política nacional.

Yascha Mounk, professor da Universidade de Harvard e especialista em crises de democracia liberal, recentemente emitiu um alerta terrível sobre os riscos de falha sistêmicas das democracias caso a capacidade dessas democracias em todo o mundo de traduzir as visões populares em políticas públicas continuem declinando e se consolidem nos próximos 20 ou 30 anos. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de dois terços dos americanos mais velhos acreditavam que era absolutamente essencial viver em uma democracia; entre os millennials, menos de um terço faz tal afirmação. Há vinte anos, um em cada 16 americanos achava que “o governo do exército” era um bom sistema de governo. Há alguns anos nova pesquisa revelou que essa proporção aumentou para um em cada seis. E os números são igualmente preocupantes para toda uma gama de países da Europa Ocidental, e é possível ver isso também no Brasil. Além disso, nessas democracias consolidadas (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, Itália) os eleitores mais velhos se tornaram muito mais críticos da democracia ao longo do tempo também. Esta não é apenas uma história sobre os jovens. As pessoas não estão apenas descontentes com determinadas políticas setoriais ou governos; elas estão cada vez mais irritadas com o sistema político como um todo. Isso torna o sistema político muito mais aberto aos populistas. “As elites não se importam com você”, dizem populistas de todos os matizes.  Nesse ponto a lógica populista é um “canto da seria” muito tentador. A lógica populista, em última análise, funciona da mesma maneira na esquerda, como na direita: uma vez que você afirma que só você fala por todo o povo, qualquer forma de oposição a você se torna imediatamente ilegítima. Assim, uma vez que você assume o poder, torna-se muito “tentador” abolir instituições independentes como os tribunais, suprimir vozes críticas na imprensa e concentrar mais e mais poder em suas próprias mãos. As democracias desenvolvidas enfrentam um “dilema tecnocrático”. O mundo se tornou muito mais complicado nos últimos 50 anos: a atividade econômica agora acontece em escala global. A tecnologia avançou em um ritmo muito rápido. Para governar efetivamente, o sistema democrático estabeleceu cada vez mais instituições tecnocráticas para governar. Os especialistas descobrem como regular as usinas de energia, políticas de saúde, de segurança e educacionais. As agências burocráticas ditam muito mais regras que os parlamentos. Organizações internacionais tentam coordenar ações de diferentes estados em áreas nas quais o mundo inteiro precisa trabalhar em conjunto. Mas, em conjunto, o efeito de todo esse desenvolvimento tem sido fazer com que muitos cidadãos se sintam como se o seu voto não importasse realmente. E as elites, por outro lado,  dizem que nada disso é um problema: desde que essas instituições façam um bom trabalho, não devemos nos preocupar com elas. Por outro lado, muitos populistas sugerem uma solução simplista: Abolir essas instituições, devolver o poder ao povo, e tudo ficará ótimo. Não acredito que qualquer dessas visões seja convincente. Precisamos genuinamente de algumas dessas instituições tecnocráticas. Mas, ao mesmo tempo, elas realmente enfraquecem o poder das pessoas. Este é um desafio fundamental para o nosso sistema político – e não vejo uma saída fácil, e ela necessariamente passa pela educação de nossas crianças e jovens.

Gerações de jovens que crescem nos dias de hoje testemunham um desrespeito institucional pela igualdade de direitos, liberdade de expressão, direito a voto e acesso a serviços públicos de qualidade. Os jovens estão particularmente desiludidos com uma democracia na qual as guerras nas redes sociais se tornam um substituto aceitável para o diálogo e o debate sobre questões substantivas. Uma reação lógica dos jovens é desprezar a democracia por vê-la como um sistema fundamentalmente injusto e corrosivo, e um conceito abstrato e ineficaz, em vez de um conjunto vibrante de comportamentos e práticas centrados na comunidade.

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Então reformar e melhorar nossa democracia depende de reparar seu próprio fundamento de representação e participação cidadã. E a reforma exige infraestrutura que garanta a participação dos cidadãos na governança (como o acesso justo e equitativo às urnas), uma mídia livre, plural, justa e robusta, e um sistema político que reduza o papel do dinheiro na política. Participação cívica e democracia não são sinônimos, mas a democracia também requer uma cidadania capaz de responsabilizar os políticos pela substância, em vez da fraude. Para este fim, é preciso assegurar que os jovens estejam preparados e motivados para serem os próximos administradores da nossa democracia. Essa  é uma condição crucial e muitas vezes ignorada para um sistema político melhorado. Muitas escolas não conseguiram preparar nossos cidadãos mais jovens para se tornarem administradores da democracia, possuindo o conhecimento e as habilidades necessárias para uma cidadania ativa e engajada.  Para refazer nossas instituições e fortalecer a democracia para as próximas gerações, o lugar mais impactante para começar é com nosso sistema educacional.  

E como transformar nossas escolas em faróis da Democracia? O processo começa com um maior respeito pela comunidade em que a escola está situada. Os alunos precisam entender que a comunidade é um lugar onde os cidadãos manifestam seus desejos e necessidades e trabalham juntos para resolver desafios comuns. Os membros da comunidade precisam ver o sucesso dos jovens como relevante para o sucesso da comunidade. temos que cultivar altas expectativas em nossas crianças e jovens. Os gestores escolares precisam aprender a reconhecer os estudantes como atores relevantes e fornecedores de importantes conhecimentos cívicos locais, capazes de participar dos  debates decisórios locais. Os jovens têm um lugar no discurso e na ação da comunidade, e é importante que eles vivenciem a totalidade do processo democrático.

O aumento e a melhoria da educação cívica dos jovens são frequentemente citados como a solução para este problema. Ressignificar o civismo é lógico e importante. De fato há pouco espaço curricular para aprender e ensinar efetivamente a educação cívica, e os recursos do governo federal, estados e distritos são escassos sobre o assunto. Assim como as correções estruturais de nossa democracia, a educação cívica é importante, mas insuficiente por si só. O desafio é redefinir o que as escolas ensinam em geral, como são ensinadas e para quem é acessível – nesse sentido a Base Nacional Comum Curricular é um elemento essencial no debate.

Não podemos divorciar o ambiente político que vivemos de nosso atual sistema educacional. Um sistema ineficiente, excludente e improdutivo, que não tem rumo nem direção clara, com o mínimo de foco no bem comum da comunidade. Pois acredito que nesse ambiente tóxico nacional de hoje existe um grande espaço para articular uma visão mais inspiradora e centrada no cidadão para nossas escolas públicas. Essa nova visão inclui a recriação de escolas como laboratórios de democracia, recrutando jovens como colaboradores que vão, junto com educadores e membros da comunidade local operar a reconstrução da democracia que nosso país tanto precisa quanto merece. Em vez de exortar os jovens a compreender uma conceituação sadia da democracia que reduza sua própria autoria na narrativa, há uma oportunidade para as escolas engajarem nossos jovens como atores políticos legítimos que podem nos ajudar a re-visualizar a própria prática e os valores associados à democracia.

Artigo de Sylvia Rousseau e Scott Warren na Stanford Social Innovation Review (SSIR)  aponta que a participação cívica começa nas escolas, e que para promover uma democracia robusta é preciso criar uma cultura escolar verdadeiramente democrática. A gestão democrática é um preceito constitucional inclusive. É preciso que o foco na comunidade permita que as aulas se tornem relevantes e interdisciplinares. A matemática ganha vida à medida que os alunos analisam os padrões de mobilidade urbana e calculam quais as prioridades efetivas dos orçamentos do município. A aula de linguagem envolve a análise de artigos no jornal e a aprendizagem de habilidades de comunicação persuasivas através do debate sobre os méritos da política local. É preciso integrar problemas científicos do mundo real com a resolução de problemas cívicos. Como exemplo de atividade, uma turma busca entender e explorar as causas do alagamentos no entorno da escola  e desenvolvem soluções sustentáveis. Outro exemplo é de turma que monitora a qualidade da água e a saúde das bacias hidrográficas e usam os dados para educar os cidadãos e informar os tomadores de decisão sobre as condições da água do município.

Além das aulas, a própria escola pode incorporar essa ênfase comunitária, tornando-se um lugar onde os alunos co-criam uma cultura escolar que reflete os princípios da democracia. Nesse tipo de escola democrática, que prioriza as vozes dos alunos e cria o espaço para a discussão deliberativa, os alunos encontram significado na educação e se tornam os protagonistas de uma nova prática democrática. É preciso que a escola abrace a comunidade e a assuma a importância de re-visualizar a educação através de uma lente democrática.

Já o professor Fernando Reimers defende que as Escolas e universidades podem ajudar a promover a democracia de quatro maneiras:

  • Educar bem todos os alunos e, assim, proporcionar a todas as pessoas oportunidades de desenvolver sua razão e as capacidades que lhes permitirão ganhar autonomia e participar da sociedade.
  • Proporcionar aos alunos a oportunidade de aprender sobre os outros que são diferentes de si mesmos, e reconhecer semelhanças, bem como apreciar as diferenças, para que eles possam desenvolver as disposições e a capacidade de colaborar com os outros em uma democracia diversificada.
  • Proporcionar aos alunos conhecimento e apreciação sobre as instituições e normas que regem a vida democrática: a constituição, a divisão de poderes, os direitos e deveres do governo e dos cidadãos.
  • Ajudar os estudantes a ganhar as competências para participar do processo democrático, não apenas participando de eleições, mas também engajando-se nas muitas formas de dever e serviço cívico que fazem da democracia um modo de vida. Esta ideia decorre do reconhecimento de que a democracia requer mais do que a participação formal nas eleições e na aceitação das instituições da democracia, requer um envolvimento ativo dos cidadãos, uma sociedade civil ativa que participa regularmente no projeto de melhoria da sociedade.

Nossas escolas, há algum tempo, estão ausentes ou equivocadas em sua missão cívica. Falta clareza de propósito. A maior parte do nosso discurso público e da política educacional tem se concentrado em recursos e metas imediatas, como matrículas, frequência, graduação ou desempenho dos alunos nos domínios básicos da linguagem ou da matemática. Todos esses insumos são importantes, com certeza; especialmente se eles estão bem alinhados com um perfil de graduados do ensino médio que incluem as competências essenciais para participar ativamente de uma sociedade democrática. Será que as escolas estão fazendo o trabalho de cultivar uma cidadania democrática se se deixam intimidar uns aos outros sobre diferenças em suas identidades, enquanto os adultos fecham os olhos sobre o assunto? As escolas não estão preparando os alunos para entender que, em uma democracia, todas as pessoas têm os mesmos direitos e deveres. Será que os gestores escolares cumprem suas obrigações para com uma sociedade democrática se estiverem focados apenas em conseguir que as escolas melhorem o desempenho dos estudantes em linguagem e matemática, enquanto deixam de atuar e enfrentar grupos extremistas que desafiam a inclusão de livros no currículo, que promovem o pensamento crítico e uma apreciação acerca da diversidade cultural brasileira?

É hora de desenvolver uma narrativa mais ambiciosa para nossas escolas. É preciso criar uma mentalidade de que o caminho para a melhoria da escola passa pela qualidade do aprendizado em leitura, matemática e ciências e vai muito além, e que o esforço da sociedade e do governo atual tem sido sido insuficiente para acompanhar os rápidos desenvolvimentos ocorridos no século XXI. É hora de agregar a ênfase na melhoria escolar para tornar as escolas mais eficientes, a esforços mais audaciosos que possam tornar o processo de aprendizado mais relevante para enfrentar os grandes desafios globais. Dos dois, o desafio democrático é o mais precioso.  Não podemos cair na busca de atalhos populistas ineficazes, com plataformas sociais destinadas que exacerbam as clivagens e a desigualdade, maior risco para a nossa frágil democracia. É preciso que  que nossas escolas forneçam uma base sólida que desenvolva as habilidades e as disposições necessárias para cuidar e entender nossas políticas, engajar e não apenas votar em eleições, participando do processo político e social no dia-a-dia. A democracia é, acima de tudo, um modo de vida, um processo – não uma participação episódica nos processos eleitorais.

Nossa democracia pode de fato estar em risco, e esse cenário exige uma abordagem forte e sistêmica. Precisamos de uma reorientação fundamental do propósito da educação pública para garantir que nossa geração mais jovem não apenas compreenda a democracia, mas também participe da criação de uma versão melhor dela.  Um Novo propósito com uma visão mais ampla de como nossas escolas podem ajudar nossos alunos a defender uma democracia que está em grande risco. Podemos ainda não ter criado uma democracia estável o suficiente para as gerações futuras. Mas os jovens podem ajudar a criar um melhor.

Quais são os Resultados Desejados da Educação de Singapura?

O Conselho Nacional de Educação brasileiro acaba de receber a Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio. A presente versão da BNCC tem 154 páginas e reúne a Introdução, a Estrutura e a proposta para o Ensino Médio a ser apreciada e discutida pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Com sua aprovação e homologação, o País estará finalmente dotado de uma Base Nacional Comum para a elaboração dos currículos de todas as etapas da Educação Básica. o Documento ressalta que “A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE)”.

Reunião na Embaixada de Singapura

Hoje tivemos importante reunião na Embaixada de Singapura para discutir possibilidades de parcerias. Na Foto, com a Secretária da Embaixada Felícia CHUA Li Si e o Assessor do Deputado Federal Mauro Mariani (SC), Dionei Silva.

Aproveito esse momento e a reunião que tivemos essa semana (09/04/2018) com a Embaixada de Singapura para far um pouco sobre um documento similar de Singapura, denominado Resultados Desejados da Educação (Desired Outcomes of Education – DOE) de Singapura. O que chama atenção no documento é a força da sua simplicidade. O documento tem 2 (duas) páginas. Os resultados desejados da Educação de Singapura são atributos que os educadores desejam que todos as crianças e jovens de Singapura tenham após a conclusão de sua educação formal. Os resultados estabelecem um propósito comum para todos os educadores, impulsionam as políticas e programas e permitem determinar o quão bem o sistema educacional de Singapura está se saindo.

Confesso que o fato do Brasil ser uma República Federativa com um complexo sistema de governança, com múltiplas responsabilidades distribuídas em 3 esferas federativas e recursos orçamentários concentrados na União faz com que a Governança de todo o processo ganhe contornos épicos, mas olhar para o DOE de Singapura é inspirador!

A pessoa que é educada no sistema de Educação de Singapura deve incorporar os Resultados Desejados da Educação. Ela tem um bom senso de autoconsciência, uma boa bússola moral, as habilidades e conhecimentos necessários para enfrentar os desafios do futuro. Ela é responsável por sua família, comunidade e nação. Ele aprecia a beleza do mundo ao seu redor, possui uma mente e corpo saudáveis ​​e tem um gosto pela vida. Em suma, ela é uma pessoa confiante que tem um forte senso do que é certo e errado, é adaptável e resiliente, conhece a si mesmo, está discernindo em juízo, pensa de forma independente e crítica, e se comunica efetivamente. Além disso a pessoa educada no Sistema educacional de Singapura é:

  • um aprendiz autodirigido que assume a responsabilidade pelo seu próprio aprendizado, que questiona, reflete e persevera na busca da aprendizagem;
  • um colaborador ativo que é capaz de trabalhar efetivamente em equipes, exerce a iniciativa, assume riscos calculados, é inovador e busca a excelência; e,
  • um cidadão preocupado que tem raízes em Singapura, uma forte consciência cívica, é informado e assume um papel ativo na melhoria da vida dos outros ao seu redor.

Os principais resultados do estágio

O DOE é traduzido em um conjunto de resultados de desenvolvimento para cada estágio chave de sistema educacional. Os resultados do estágio-chave explicitam o que o Serviço de Educação aspira a desenvolver nos alunos por meio da educação primária, secundária e pós-secundária. Cada nível educacional baseia-se nos estágios anteriores e estabelece as bases para os posteriores. Por exemplo, os alunos da escola primária começam aprendendo a conhecer e amar Singapura. Ao fazer isso, sua crença em Singapura será fortalecida e eles entenderão o que importa para Singapura na escola secundária. Eles vão crescer para se orgulhar de Singapura e entender o seu país dentro do contexto global no nível pós-secundário.

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Existem oito resultados em cada estágio chave. Tomados em conjunto, os Resultados do Estágio Chave tornam explícito o que o sistema educacional aspira a desenvolver em suas crianças e jovens, de modo a estabelecer as bases sólidas para que eles prosperem e alcancem o sucesso na vida como membros contribuintes da sociedade.

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Porque Garantir o Direito à Educação dessa Geração é uma Questão Vital?

Milhões estudantes em todo o mundo chegam ao final de sua escolaridade obrigatória sem ter adquirido as habilidades básicas necessárias na sociedade e no local de trabalho atuais. Até mesmo nos países que estão no topo do ranking internacional do PISA existem milhares de estudantes de 15 anos que não alcançaram um nível básico de proficiência em matemática, leitura e ciências. Trata-se de um mecanismo perverso e vicioso de desempenho e desmotivação ruins que levam apenas a mais notas ruins e a mais desmobilização da escola. Os alunos com desempenho ruim aos 15 anos de idade enfrentam um alto risco de abandonar a escola. No momento em que se tornam jovens adultos, a baixa proficiência em matemática e leitura pode se traduzir em menor acesso a empregos melhor remunerados e mais recompensadores, saúde mais precária e menor participação social e política. Quando uma grande parte da população carece de habilidades básicas, o crescimento econômico e a equidade a longo prazo de um país estão seriamente comprometidos.

Além dos danos óbvios que isso causa às vidas individuais, é preciso entender as raízes de fracasso dessa magnitude em nível sistêmico, e as graves consequências para as economias e para as sociedades como um todo.

Os números são alarmantes e o resultado será cruel para o futuro de toda a Humanidade. Enfrentar esse desafio é uma questão civilizatória: É preciso garantir o direito de todos à educação de qualidade!

O relatório do PISA “Low-Performing Students – Why They Fall Behind and How To Help Them Succeed” (alunos de baixo desempenho: por que eles ficam para trás e como ajudá-los a ter sucesso), oferece uma análise aprofundada do baixo desempenho na escola e recomenda maneiras de resolver o problema.

Análises mostram que uma combinação e um acúmulo de fatores contribuem para a probabilidade de que alguns alunos tenham um desempenho ruim na escola. Vir de uma família socioeconomicamente desfavorecida é o mais óbvio e talvez o mais forte fator de risco de baixo desempenho na escola, mas não é o único. Os estudantes com background de imigrante e aqueles que falam uma língua em casa diferente da que é falada na escola, os estudantes de áreas rurais e aqueles que vivem em famílias monoparentais têm, em muitos países, maior probabilidade de apresentar um mau desempenho. Curiosamente, os estereótipos de gênero afetam meninas e meninos diferentemente, dependendo do assunto: enquanto as meninas são mais propensas que os meninos a ter baixo desempenho em matemática, os meninos são mais propensos do que as meninas a ter baixo desempenho em leitura e ciências.

As oportunidades, atitudes e comportamentos educacionais dos alunos também são importantes. Os alunos que não tiveram ou tiveram acesso breve à educação pré-primária têm maior probabilidade de ter baixo desempenho do que aqueles que frequentaram mais de um ano de educação pré-primária. Os de baixo desempenho também são mais freqüentes entre os que repetiram uma série – seja porque o baixo desempenho levou à repetição ou porque a série repetiu mais cedo, o que levou ao desligamento da escola e ao baixo desempenho aos 15 anos – ou a programas vocacionais. Mas os estudantes que aproveitam ao máximo as oportunidades disponíveis – frequentando regularmente a escola, ficando maior tempo mais na escola, gastando mais tempo fazendo o dever de casa e participando de atividades extracurriculares disponíveis na escola – têm menos probabilidade de ter um desempenho ruim.

Altas expectativas –   De acordo com o relatório, o desempenho dos alunos na escola também é influenciado pelas escolas que frequentam. Os alunos com dificuldades se beneficiam de professores que demonstram interesse pelo aprendizado de cada aluno, ajudam os alunos quando precisam, trabalham com os alunos até compreenderem o conteúdo do curso e dão aos alunos a oportunidade de expressar suas opiniões. Professores que têm altas expectativas para os alunos, trabalham com entusiasmo, se orgulham de sua escola e valorizam o desempenho acadêmico também são mais propensos a tornar as atividades e tarefas escolares mais atraentes para os alunos. Os recursos escolares e as práticas organizacionais também estão relacionados ao baixo desempenho, mesmo após considerar as características socioeconômicas dos alunos e das escolas. Escolas com materiais educacionais de maior qualidade, e aquelas que oferecem atividades mais extracurriculares, têm menos desempenho baixo, em média, nos países da OCDE.

Recomendações – De acordo com o Relatório do OCDE, os formuladores de políticas precisam fazer do combate ao baixo desempenho uma prioridade em sua agenda de políticas educacionais – e traduzir essa prioridade em recursos adicionais. Combater o baixo desempenho requer uma abordagem multifacetada, adaptada às circunstâncias nacionais e locais. Os países precisam organizar escolas e sistemas de ensino para que possam oferecer oportunidades de educação precoce para todos; e os sistemas educacionais precisam identificar alunos e escolas de baixo desempenho e intervir com políticas e práticas apropriadas e direcionadas (por exemplo, apoio corretivo, de linguagem ou psicossocial). As habilidades para ensinar e gerenciar diversas populações estudantis podem ser enfatizadas nos programas de treinamento de professores e desenvolvimento profissional. O apoio dos pais e as atitudes e comportamentos positivos dos alunos (por exemplo, frequentar a escola regularmente e pontualmente, concluir tarefas de casa e abordar a aprendizagem com perseverança e motivação) também são boas maneiras de lidar com o baixo desempenho escolar. Países com diferenças econômicas e culturais, como Brasil, Alemanha, Itália, México, Polônia, Portugal, Federação Russa, Tunísia e Turquia, reduziram sua participação de pessoas com baixo desempenho em matemática entre 2003 e 2012. O que esses países têm em comum? Não muito: suas respectivas ações de baixo desempenho em 2003 diferiram amplamente, assim como seu desempenho econômico durante o período. Mas aí está a lição: todos os países podem melhorar o desempenho de seus alunos, dadas as políticas corretas e a vontade de implementá-las.

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Abaixo, uma apresentação do Relatório realizada pelo INEE:

Qual é a Educação que o Brasil precisa?

Leio muito sobre a complexidade da educação, de seus tempos longos, que a qualidade das ações dos gestores é algo difícil de mensurar, e que tudo em educação leva grande tempo de maturação e comprovação de resultados.

É preciso romper essa visão! Em verdade, nosso problema maior é que nos falta o grande projeto de Brasil e de Educação!

Imagine por um momento que o Brasil tivesse um grande projeto de educação concebido e que um grupo determinado chegasse ao poder para transformar em realidade esse projeto: quanto tempo levaria para colocar esse plano em movimento? 10 anos? 15 anos? 20 anos? Pois eu afirmo que em menos de 1 ano um pequeno grupo, liderado por Darcy Ribeiro no Ministério da Educação e Anísio Teixeira no Inep implantou um projeto que até hoje é a base do nosso modelo educacional. Só que infelizmente esse projeto, tão importante na segunda metade do século XX, não foi até hoje repensado em seu framework global– tanto que apresenta nítidos sinais de esgotamento, e precisa ser revisto integralmente!

Foi numa gestão do Ministério da Educação entre 1961 e 1962 que Darcy e Anísio implantaram um projeto revolucionário. O projeto, delineado lá em 1932, com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, assinado por vários educadores, foi sendo maturado durante décadas, mas essa dupla em poucos meses conseguiu implantar um conjunto de ações que moldou os alicerces da educação nacional, muitas delas presentes até os dias de hoje. São dessa época a primeira LDB do país, o primeiro Plano Nacional de Educação, a criação de normas e percentuais mínimos para aplicação dos recursos, com a criação do Fundo Nacional de Educação e a aplicação de 12% da receita de impostos da União à constituição desse Fundo. Embora estivesse prevista constitucionalmente, a aplicação desse montante só aconteceu, de fato, durante a gestão de Darcy. No campo do ensino primário, promoveu-se a suplementação do salário dos professores do interior para evitar o abandono do ensino, bem como campanhas intensivas de formação e aperfeiçoamento do magistério, entre outras iniciativas. Na área do ensino médio, desenvolveu-se a Campanha para Formação Intensiva da Mão de Obra Industrial, tendo em vista a preparação de operários para a indústria. Em relação ao ensino superior, duplicou-se o número de vagas nas faculdades visando ao aproveitamento integral dos candidatos aprovados nos exames vestibulares.

Essa é a base da educação brasileira até os dias de hoje – mudaram os nomes mas até hoje falamos de LDB, do PNE, da formação de professores, dos recursos do Fundeb, da formação profissional e do vestibular/Enem. O grupo de Darcy e Anísio, com a clareza do projeto de Brasil e de educação, priorizou a construção de um modelo de educação como política pública no país e colocou o acesso à educação como central para o desenvolvimento da nação, num grande projeto de longo prazo.

Hoje o desafio é outro, pois o mundo mudou. É preciso olhar para o futuro, para os desafios do século XXI, para o Brasil que queremos e traçar esse plano. Por isso, afirmo: chegou a hora de falar do Brasil que queremos e da educação que o Brasil precisa!

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Valorizando nossos professores… Como as comunidades podem ajudar?

Há um crescente reconhecimento de que os professores desempenharão um papel fundamental na preparação dos alunos para os desafios do futuro. O relatório da OCDE “Valorizando nossos professores e elevando seu status” lançado essa semana mostra como os sistemas educacionais podem apoiar os professores para atender a essas novas demandas e encorajar uma mudança de paradigma sobre o que é ensinar e aprender e como eles devem acontecer.

A OCDE sistematiza nesse relatório um conjunto essencial de informações, por entender que os professores precisam equipar os alunos com o conjunto de habilidades e conhecimentos necessários para o sucesso em um mundo cada vez mais global, digital, complexo, incerto e volátil. Isso envolverá professores e escolas forjando vínculos mais fortes com os pais e as comunidades locais, criando um senso de responsabilidade social e habilidades de resolução de problemas entre seus alunos. Isso também significa que os professores precisam adotar pedagogias eficazes e individualizadas que promovam a aprendizagem dos alunos e estimulem suas habilidades sociais e emocionais.

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O relatório mostra como os sistemas educacionais podem apoiar os professores para atender a essas novas demandas e encorajar uma mudança de paradigma sobre o que é ensinar e aprender e como eles devem acontecer. Os sistemas educacionais precisam criar as condições que incentivam e possibilitam a inovação. Eles precisam promover as melhores práticas por meio de políticas voltadas para o profissionalismo, a eficácia e a eficácia, a fim de ajudar a capacitar os professores na adoção de novas pedagogias. Deve ser dada a devida atenção à sensação de bem-estar dos professores, para que os ambientes de aprendizagem em sala de aula continuem a ser conducentes ao bem-estar e desenvolvimento dos alunos.

Os sistemas escolares precisam se adaptar às mudanças econômicas e sociais para equipar os alunos com as habilidades, conhecimentos, atitudes e valores relevantes necessários para o sucesso na vida e no trabalho futuros. A expansão da tecnologia, apresenta novas oportunidades e desafios para preparar os alunos para serem aprendizes ao longo da vida e ao longo da vida. Os alunos agora precisam não apenas aprender informações, mas também entender como usá-las, precisam interagir com sucesso e respeito com os outros, tomar ações responsáveis ​​e trabalhar juntos para o bem-estar coletivo. Equipar os alunos com essas habilidades requer inovação e uma mudança nas abordagens de ensino e aprendizagem. Os professores são atores-chave na criação deste contexto de aprendizagem e crescimento e podem ajudar a estabelecer ambientes de aprendizagem eficazes. Enquanto nos movemos para o futuro, novas formas de provisão educacional serão necessárias para reconhecer o papel essencial que os professores desempenham na transformação das salas de aula e para apoiá-las em seu esforço.

O relatório destaca as grandes questões a serem enfrentadas quando fala do professor. As escolas não funcionam no vácuo. As escolas de sucesso dependem dos recursos e do apoio das suas comunidades e as escolas no centro das suas comunidades são frequentemente as escolas mais bem sucedidas. Por sua vez, as escolas são vitais para a saúde social de suas comunidades locais. O que os formuladores de políticas com sindicatos de professores e a profissão docente podem fazer para fortalecer os vínculos com as comunidades? Dada a importância das escolas para as comunidades desfavorecidas, como o sistema de apoio aos professores e à equipe de educação pode ser fortalecido nessas escolas para gerar qualidade e equidade? O que podemos aprender das escolas que fazem parceria com empresas? serviços educacionais e órgãos culturais em sua comunidade e se destacam em gerar negócios e inovação social em suas comunidades? Como as escolas podem envolver a comunidade local e contribuir para a responsabilidade social?

No coração da educação está a pedagogia. Muitos professores têm um bom senso do tipo de pedagogias nas quais o aprendizado do século XXI depende, mas existe uma grande lacuna entre as práticas pretendidas e implementadas. Como os sistemas de educação podem criar as condições para encorajar e apoiar os professores a iniciar, compartilhar e avaliar pedagogias e currículos inovadores, incluindo novas tecnologias? Quais são as implicações de novas pedagogias para os papéis de professores e alunos? Quais são as implicações da inovação pedagógica e dos ambientes de aprendizagem inovadores para os papéis dos governos e dos sindicatos? Quais são as implicações de novas pedagogias e currículos para avaliação de escolas e sistemas?

Por fim, é preciso reconhecer que, para que o ensino e a aprendizagem sejam os mais eficazes, os professores devem ter altos níveis de bem-estar, autoeficácia e confiança. Isso reflete evidências crescentes de que o bem-estar, a eficácia e a confiança dos alunos são vitais para o aprendizado. Como o bem-estar do professor se relaciona com a eficácia do professor e com o bem-estar do aluno? Como o bem-estar do professor deve ser prioritário nas políticas públicas? Como os governos, em parceria com os sindicatos de professores, podem criar estratégias baseadas em evidências sobre bem-estar, eficácia e eficácia como parte de suas políticas de professores?

Fórum Mundial da Água: A água na agenda política!

Participo do Fórum Mundial da Água que ocorre em Brasília. Participar do 1° Fórum realizado no hemisfério sul é oportunidade para atualizar o olhar para temática que foi objeto de estudo em meu processo de formação como geógrafo. E novamente continua cada vez mais atual e intensa a importância de buscar soluções para garantir o direito á água e otimizar seus diversos usos por meio de ações educativas transformadoras.

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O tema da água, que já é considerado um grave problema em várias regiões do mundo,  deve ser considerado um problema crônico no Brasil, com as crises de abastecimento vivenciadas vários Estados e municípios. Os debates no Fórum indicam a importância de  novas abordagens para enfrentar a questão de maneira séria. A água doce é um recurso essencial para a vida e um direito humano básico. Além disso, toda atividade econômica e produtiva depende de água. A situação é grave, quando consideramos os seus diferentes usos, como abastecimento público, produção de bens, irrigação, abastecimento de animais, termelétricas e mineração. Temos que enfrentar o desafio da garantia de acesso à água de maneira sustentável e integrada, com planejamento e gestão. Não dá mais para improvisar, é preciso pulso firme e decisão, integrar as ações em diferentes frentes, entendendo o desafio em toda sua complexidade.

O Estudo Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2017, elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA) mostra um complexo quadro do uso da água no Brasil. No Brasil, a irrigação, o abastecimento animal e o uso industrial consomem mais 80% da água do país, enquanto o uso para abastecimento publico seriam responsáveis hoje por cerca de 10% do consumo de água no Brasil. Isso coloca a questão da água no Brasil  como um problema social, que afeta o direito de acesso a água das pessoas, e se revela ainda um grave problema econômico, que afeta diretamente o desenvolvimento econômico do país.

Quadro de Demandas por Finalidade - Brasil 2016

Retirada: refere-se à água total captada para um uso. Exemplo: água retirada para abastecimento urbano. Consumo: refere-se à água retirada que não retorna diretamente aos corpos hídricos. De uma forma simplificada, é a diferença entre a retirada e o retorno. Exemplo: água retirada para abastecimento urbano menos a água que retorna como esgoto. Retorno: refere-se à parte da água retirada para um determinado uso que retorna para os corpos hídricos. Exemplo: esgotos decorrentes do uso da água para abastecimento urbano.

Os quadros abaixo apresentam o percentual do total de água retirada e consumida pelos diferentes usos.

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Aqui no Fórum Mundial da Água, maior evento da agenda global da água, que este ano ocorre no Brasil, é preciso dar visibilidade para essa agenda política, para que soluções sustentáveis sejam pactuadas e executadas. É preciso ajudar a construir uma nova agenda politica da água, que garanta o direito de uso da água para nós e nossos filhos, e o pleno desenvolvimento brasileiro, entendendo que a água se constituirá cada vez mais num ativo estratégico mundial, patrimônio da nação brasileira.

Nesse sentido ganha relevo o debate acerca de como a educação participa intrinsecamente das soluções para enfrentar o desafio de garantir o direito a água num contexto global de sustentabilidade. Sobressai nesse debate o desenvolvimento das chamadas competências globais, ou da educação para a cidadania global, no contexto da reflexão acerca dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU). Eles se somam a uma pauta universal ancorada em direitos humanos que invoca o espírito de solidariedade e de responsabilidade pela inclusão de todos. A educação – que consta como o quarto objetivo – é a força mais transformadora para fomentar a mentalidade, os valores e as habilidades novos necessários para moldar o futuro fundamentado na consciência de nossa humanidade e ancorado no respeito a nossa formidável diversidade, com a certeza de que, em qualquer idade, temos capacidade de iniciar ações benéficas para nós e para os outros.

Uma passagem do livro do professor Francisco Reimers, “Empoderar crianças e Jovens para a cidadania global” dá a dimensão da importância entre esses dois temas

A educação para a cidadania global é essencial para a criação de um mundo com paz sustentável – um mundo sem pobreza ou fome e onde todos têm acesso à saúde e à educação. Um mundo onde mulheres e homens têm as mesmas oportunidades, contam com água limpa e saneamento, usam fontes renováveis de energia, trabalham em bons empregos e vislumbram crescimento e prosperidade criados pela indústria e pela inovação. Um mundo onde reduzimos as desigualdades, criamos cidades e comunidades sustentáveis, praticamos o consumo responsável e abolimos comportamentos que alteram o clima ou prejudicam a vida neste planeta. Um mundo onde honramos e protegemos a vida subaquática e em terra. Um mundo de paz e justiça para todos.

 

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Se o propósito da educação é capacitar todas as crianças e jovens para que se tornem cidadãos globais, devemos elevar o nível de nossas aspirações sobre o que significa educar bem. A urgência de preparar todos os estudantes para serem cidadãos globais exige programas inovadores, que utilizem novas formas de ensino e aprendizagem. Esses currículos também devem proporcionar a todos oportunidades de desenvolver as predisposições, os conhecimentos e as capacidades necessárias para compreender o mundo em que vivem, dar sentido à maneira como a globalização molda suas vidas e ser bons colaboradores e agentes dos ODS.

É assim que participo do Fórum Mundial da Água, buscando resgatar o sentido das fortes conexões que ligam o mundo da água com o mundo da Educação!

Encontro “duro” e “sincero” de Hillary Clinton com ativistas elenca 3 pontos para a transformação da política educacional

A conversa brutal e franca da então candidata presidencial Hillary Clinton com ativistas da Black Lives Matter durante a campanha eleitoral de New Hampshire em 2015 capturou várias facetas do processo de desenvolvimento de políticas públicas. As afirmações de Clinton são pedagógicas para qualquer pessoa que esteja tentando mudar a política, e particularmente relevantes para aqueles focados em transformar a política educacional brasileira.

Clinton enfatizou três pontos que no seu ponto de vista eram essenciais no processo de transformação política:

I. Primeiro, não é suficiente conquistar corações para a reforma das políticas.
II. Segundo, você deve mudar leis, alocação de recursos e sistemas para provocar mudanças reais.
III. Terceiro, você precisa de um plano.

Clinton está certa de que não basta apenas falar com as pessoas e convencer pelas suas crenças. Uma pesquisa Lumina/Gallup de abril de 2015 identificou que 96% dos americanos valorizam o ensino pós-secundário. Dado que o aumento do número de graduados no nível pós-secundário é uma prioridade para o presidente, os estados, as principais ONG´s e o público, é seguro dizer que temos a mentalidade coletiva para aumentar esse percentual. No entanto, apesar de todo o interesse – e grande esforço – o crescimento percentual na obtenção de certificação no ensino superior nos Estados Unidos entre 2012 e 2013 foi de apenas 0,6%, bem abaixo das taxas projetadas e necessárias para preencher empregos atuais e futuros que exigirão educação pós-secundária e manter a competitividade econômica global americana. Claramente, é preciso de mais do que um acordo coletivo e boa vontade.

Leis, alocação de recursos e mudança de efeito de reforma de sistemas. A transformação deve ser cercada por mudanças na infraestrutura, na responsabilidade e em leis concretas. O crescimento do financiamento baseado em desempenho no ensino superior público americano é um bom exemplo. O Conselho Nacional de Legislaturas do Estado informa que mais de 30 estados americanos agora possuem algum tipo de financiamento baseado em desempenho, forçando efetivamente as faculdades e as universidades a se concentrar em objetivos públicos, como o aumento da certificação. Outros exemplos incluem novas leis e mudanças no sistema para melhorar drasticamente os resultados para os alunos que estão preparados para a faculdade, como as reformas da política de educação para o desenvolvimento em Connecticut, Flórida, Carolina do Norte e Virgínia. Muitos estados estão construindo ativamente uma infraestrutura para apoiar os esforços de reforma de suas faculdades também. Excelentes exemplos incluem os Centros de Sucesso Estudantil que incentivam a colaboração entre faculdades e implantam assistência técnica e o Student Success Learning Institute , um instituto de desenvolvimento profissional de longo prazo baseado em coortes na Carolina do Norte. Existem diferenças técnicas e filosóficas sérias sobre como o financiamento do desempenho e as reformas das políticas de educação para o desenvolvimento surgiram. Mas também há concordância geral de que, sem eles, as faculdades comunitárias não teriam alcançado os progressos dos últimos anos. Ainda assim, para catalisar e sustentar mudanças significativas, precisamos de mais do que legislação e mudanças de políticas.

Clinton comunicou como terceiro ponto a importância de ter um plano acionável que pode ser explicado e vendido para a população em geral. Não basta ter uma posição que seja “historicamente, psicologicamente e economicamente justa … você tem que se unir como um movimento e dizer:” Aqui está o que queremos fazer sobre isso “, afirmou Clinton. Sem um plano que envolva as pessoas de forma construtiva e incentive a ação, causas dignas vão “ficar na prateleira”. Isso é verdade para o sentimento público positivo em torno do aumento das taxas de matrículas na graduação. Sem um plano, é improvável que atinjamos o objetivo de conclusão de jovens graduados, especialmente para alunos de baixa renda e estudantes de cores, muitos dos quais estão preparados para o sucesso nas faculdades comunitárias nas quais se inscrevem.

A franqueza de Clinton e a praticidade de suas recomendações sobre o processo político são esclarecedores, independentemente da afinidade política. Corações e mentes por si só são insuficientes para efetuar mudanças duradouras, mas em combinação com mudanças em leis, alocação de recursos, sistemas e planos construídos de forma credível, podem abordar de forma mais efetiva a questão crítica de ajudar as comunidades de baixa renda a obter acesso ao nível superior de que necessitam para avançar na economia de nossa nação. Embora a obtenção pós-secundária não apague as questões sociais e econômicas estruturais mais amplas e profundas levantadas pelos ativistas da Black Lives Matter, o aumento do acesso ao nível superior é uma parte crítica de uma solução multifacetada.

Com relação a transformação da política educacional brasileira, será que estamos seguintes os três pontos apontados por Clinton?

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Worldwide Educating for the Future Index: Como estamos preparando nossos jovens para o futuro?

À medida que o mundo se torna cada vez mais incerto e volátil, quão bem o seu país está educando a próxima geração com as habilidades necessárias ao futuro?

O Índice Mundial de Educação para o Futuro (Worldwide Educating for the Future Index) criado pela The Economist Intelligence Unit (EIU), e encomendado pela Yidan Prize Foundation, juntamente com 17 especialistas globais, foi  desenvolvido para avaliar a eficácia dos sistemas educacionais na preparação dos alunos para as demandas de trabalho e vida em uma paisagem em rápida mudança. É o primeiro índice global abrangente que avalia insumos de sistemas educacionais, em vez de resultados (tradicionalmente medidos por meio de testes) de 35 economias.

O rápido desenvolvimento da tecnologia e a natureza globalizada dos sistemas econômicos estão criando um conjunto inteiramente novo de desafios educacionais para o mundo. Os trabalhadores do futuro precisarão dominar um conjunto de habilidades interpessoais, de resolução de problemas e de pensamento crítico, e navegar num mundo cada vez mais digital e automatizado.

Este artigo apresenta um extrato dos resultados apresentados no Relatório do primeiro Índice Mundial de Educação para o Futuro (Worldwide Educating for the Future Index) criado pela The Economist Intelligence Unit (EIU),  para avaliar até que ponto os sistemas educacionais incorporam tais habilidades.

Entre as principais conclusões do documento destaco:

Muitos governos não estão fazendo o suficiente para preparar milhões de jovens para mudanças sísmicas no trabalho e na vida. Milhões de jovens não estão aprendendo  habilidades efetivas e relevantes,  e estão despreparados para os complexos desafios do século XXI. O desempenho de várias economias no índice indica que há muito espaço de melhoria. Embora em geral, as economias mais ricas melhorem, muitas lutam para vencer a média, sugerindo que mais pode e deve ser feito.

Temas cruciais como a aprendizagem baseada em projetos e a cidadania global estão sendo amplamente ignoradas. Não basta simplesmente ensinar tradicionalmente bem. Os sistemas educacionais precisam adotar novas abordagens que ajudem os alunos a aprender habilidades como pensamento crítico, colaboração e conscientização de temas relevantes como mudanças climáticas. No entanto, apenas 17 das 35 economias indexadas oferecem algum tipo de avaliação para testar global habilidades de cidadania, e apenas 15 avaliam aprendizado baseado em projetos.

A política educacional deve ser fortalecida com iniciativas que garantam professores talentosos para orientar os alunos a obter “habilidades futuras”. Um sistema efetivo deve ser constituído de professores habilidosos e altamente capacitados, dispostos e capazes de enfrentar o desafios de preparar estudantes para um futuro em constante evolução e complexo. O índice sugere que avanços importantes já são sendo tomadas nesta área: na maioria das economias estudadas, módulos de ensino enfatizam a importância de habilidades futuras, pelo menos em certa medida. A formação também é importante: quase metade das economias pesquisadas exigem professores com formação específica em ensino, e todos exigem pelo menos um formação universitária.

As paredes da sala de aula devem ser “derrubadas”. A educação não deve parar quando os alunos pisam fora da sala de aula. Professores e pais precisam equipá-los com habilidades e atitudes que permitam aplicar conceitos acadêmicos no mundo lá fora. Eles devem aprender no território, como um processo orgânico, não apenas quando confinados em ambientes de ensino tradicionais. O índice também indica que os governos estão envolvendo o setor produtivo com a comunidade em seus sistemas educacionais: pelo menos três economias mostram algum nível de colaboração universidade-indústria.

Investir nos professores e financiamento adequado para a educação é importante, mas o dinheiro não é uma panacéia. Existe um link entre insumos monetários para sistemas educacionais e sucesso no índice. A pesquisa sugere que os governos poderiam dedicar mais recursos aos professores, elevando os salários, perfil e prestígio da profissão. Embora simplesmente aumentar os orçamentos não seja uma solução abrangente, pode sinalizar em que medida a  educação é uma prioridade da sociedade e de governos com recursos limitados. Algumas economias de baixa renda, por exemplo, investem  uma parte muito maior de seu PIB em educação do que economias com alta renda.

Uma educação holística e futura do sistema está intimamente ligada a abertura e  tolerância da sociedade. Os resultados do índice também dependem de atitudes coletivas da sociedade, inclusive as de diversidade cultural, tratamento dado às mulheres e liberdade de informação. Em geral, as  economias com tradições econômicas e sociais liberais tem melhor desempenho no índice. Importante destacar que as gerações mais jovens enfrentarão um mundo significativamente diferente em termos de trabalho. Isso está sendo conduzido pela globalização, com maior integração entre economias em todo o mundo e tecnologia digital. O desenvolvimento de IA (Inteligência Artificial) e IoT (Internet das Coisas) mudarão o tipo e o perfil exigido para os empregos e muitos empregos provavelmente desaparecerão como resultado. Outras pressões, como a migração, mudanças demográficas, urbanização e degradação ambiental também afetarão cada vez mais a vida das pessoas.  Esta preparação para o futuro exigirá que os alunos adquiram uma série de habilidades específicas que possam ajudá-los a lidar com esse mundo em mudança.

A educação será menos sobre aprender informações e mais sobre como analisar e usar informações. O mundo já não se preocupa com o que os alunos sabem, mas o que eles podem fazer com o que eles conhecem. Para esse fim, identificamos os seguintes tipos de habilidades os estudantes atuais precisarão florescer no mundo como adultos:

• habilidades interdisciplinares

• habilidades criativas e analíticas

• Competências empresariais

• Habilidades de liderança

• habilidades digitais e técnicas

• Sensibilização global e educação cívica

O índice foi desenvolvido para ajudar responda esta pergunta e destaque onde os sistemas estão bem informados e estão onde estão falhando. Na verdade, há uma série de proeminentes decepções. Taiwan, por exemplo, apesar de uma reputação de ensino forte na ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), ocupa apenas 19ª posição no ranking, enquanto Israel, chamada “Nação iniciante”, também apresenta uma performance inferior, chegando apenas em 26º.

Uma questão crucial que a leitura do documento suscita e que precisamos responder enquanto Brasil é: como nosso sistema educacional está se preparando para desenvolver  estas habilidades?

Chile lança “Marco para a Gestão e Liderança Educacional”

Compartilho o documento  “Marco para la gestión y liderazgo educativo local”, iniciativa do Centro de Liderazgo para la Mejora Escolar em colaboração com o Ministério da Educação chileno. O documento apresenta importantes referenciais de qualidade da gestão educacional.

As evidências na literatura apontam para a importância do nível de gestão para gerar condições de trabalho adequadas nos estabelecimentos escolares e constitui um poderoso conector poderoso entre as políticas públicas de nível nacional e as escolas, os professores.