Mais estradas, menos congestionamento, certo? Errado!

Em termos de mobilidade urbana, a desorganização cobra seu preço. Um tempo atrás, o Christain Science Monitor publicou um artigo interessante sobre um dos temas mais interessantes da gestão da política de mobilidade urbana: o chamado Paradoxo de Braess.

Nesse artigo, o matemático Dietrich Braess provou uma tese polêmica e que deixaria muitos “especialistas de botequim” da área de transporte boquiabertos: às vezes, a construção de um novo caminho  – até mesmo um de alta velocidade – pode diminuir a velocidade do tráfego de toda uma região. (Veja a página da Wikipedia sobre o assunto)

Outro artigo que fala do assunto é o da Sightline Daily. Este não é realmente apenas um paradoxo no sentido estrito. É  uma daquelas coisas que quando faladas em uma campanha eleitoral, por exemplo,  soa completamente implausível, mas ainda assim a tese é totalmente verdadeira.

O inverso é igualmente verdadeiro: por vezes, o fechamento de uma via pode acelerar o tráfego de uma determinada região.

A cidade de Seul, na Coréia, por exemplo, identificou uma rodovia de alta capacidade que tinha essa estranha propriedade.(veja mais sobre este caso aqui). A cidade acabou com a rodovia e – quase como mágica – os congestionamentos diminuíram, e o ambiente urbano ficou sensivelmente melhor com a urbanização feita no lugar da rodovia.

Segundo os pesquisadores, outras cidades poderiam se beneficiar da mesma abordagem.  Um artigo dos pesquisadores Hyejin Jeong, do Departmento de Física da Korea Advanced Institute of Science and Technology, e Michael T. Gastner, do Departamento de Ciência da Computação da Universidade do Novo Mexico trata do assunto.

O artigo destacou um estudo intitulado” O Preço da Anarquia nas Redes de Transporte “, que aborda alguns exemplos reais de cidades que podem se beneficiar seguindo o exemplo de Seul.

Segue um trecho interessante do artigo :

A Sociedade tem que pagar um preço de anarquia para a falta de coordenação entre seus membros. Aqui nós avaliamos esse preço de anarquia, analisando os tempos de viagem em redes de estradas de várias cidades grandes. Nossa simulação mostra que os motoristas descoordenados possivelmente desperdiçam uma quantidade considerável de seu tempo de viagem.  Assim, bloquear certas ruas parcialmente pode melhorar as condições de tráfego.

Os autores definem o “preço da anarquia”, como a diferença entre o “ótimo social” (o melhor desempenho possível do sistema viário, se todos cooperarem) e do “equilíbrio de Nash” (perfermance do mundo real, em que todos os atos  em seu próprio interesse, sem nenhuma consideração real para o bem comum). É, essencialmente, a quantificação de uma falha de mercado, em que as decisões individuais racionais levam a resultados ridiculamente irracional. (parênteses meu: “falha de mercado? Quer dizer que o mercado pode falhar? rsrs)

Os autores utilizaram alguns, mas não muito complicados métodos, para calcular o “preço da anarquia” nas redes rodoviárias de Londres, Nova York e Boston.

E descobriram que a anarquia pode aumentar o tempo de viagem em até trinta por cento.

Aparentemente, quando as pessoas lotam os percursos mais rápidos, e então eles podem diminuir de viagem para todos.

Tão importante quanto isso, os autores identificam ruas específicas que, se eliminadas, poderiam reduzir o “preço da anarquia” e melhorar os tempos de viagem.

No mapa de Londres (veja as imagens no artigo), as linhas pretas são as rotas negativas: fechá-las aos carros pode significar, de acordo com a pesquisa, que o tráfego vai melhorar! As linhas vermelhas são as vitais: fechar as linhas vai significar um tráfego muito pior. Ruas azuis – a grande maioria – pode ser cortada com nenhuma mudança significativa no tempo de viagem.

Basta pensar: uma análise cuidadosa de tráfego matemático considera que a maior parte das artérias urbanas são mais ou menos irrelevante para o tempo de viagem em geral.

Os autores também analisaram Manhattan e em Boston, com resultados bastante semelhantes.

Esta pesquisa na minha avaliação,  ajudam a desconstruir a idéia de que o único caminho bom para tornar o tráfego mais rápido é construir mais e cada vez maiores estradas mais largas, com grandes e caros viadutos. E vai ao encontro de uma discussão política mais ampla, numa linha próxima a das Cidades Educadoras, que é tratada pelo Blog do Fachini: – Afinal de contas, que cidade queremos para nós e nossos filhos?