Geografia Urbana – Conceitos Interessantes

Um livro muito interessante sobre a geografia urbana é o de Jacqueline  Beaujeu-Garnie (Beaujeu-Garnier, Jacqueline. Geografia Urbana. 2a Edição: Lisboa; Editora: Fundação Calouste Gulbenkian; 1997 –   ISBN/ISSN: 972-31-0768-6).

Jacqueline Beaujeu-Garnier traz um ensaio de síntese e insiste na importância das inter-relações, que caracterizam o que a autora chama de sistema urbano.

Assim, ao lado dos elementos característicos da análise dos geógrafos há muito tempo (distribuição espacial, população, funções, etc), a autora incorpora a caracterização de vários agentes motores do sistema – o papel do capital, as imbricações dos fenômenos econômicos que influem no preço do solo, o poder político, o comportamento dos habitantes, entre outros.

Destaco aqui a seguir alguns conceitos e temas que me chamaram a atenção no livro de Beaujeu-Garnier.

Adaptação e ocupação do espaço - A perda de comunicações estreitas, que o pequeno grupo favorece, a despersonalização do ser, as repercussões de um ambiente cada vez mais artificial, mesmo quando transformado no sentido considerado mais favorável aos estabelecimentos humanos, refletem-se nos indivíduos, transformando-os. Mas a capacidade de adaptação do homem não é inesgotável e a vida urbana pode provocar traumatismos graves, assim como, inversamente, pode aumentar consideravelmente a capacidade de mudança (p. 44).

(…) e essa área é tanto mais extensa quanto mais elevado for o nível do referido estabelecimento de ensino, a sua reputação e a sua especialização. A dimensão e o nível do hospital, a qualificação e o renome dos especialistas que aí trabalham fazem, de igual modo, sentir a sua influência a uma distância maior ou menor (p. 59).

Consumo de espaço – Beaujeu-Garnier sublinha que a área de residências não é a única responsável por este consumo de espaço. Por exemplo, para a aglomeração parisiense, a ocupação do solo segue a seguinte divisão: 28% para habitações, 6% para atividades, 14% para ruas e equipamentos, 20% para espaços verdes, 26% para espaço agrícola ainda ‘resistente’ a construção e 6% para outros espaço não construídos. No espaço residencial, a habitação coletiva utiliza 31% da área e abriga 77% da população. As cidades de países em desenvolvimento não escapam a estes problemas. A generalização da habitação individual conduz a uma exagerada extensão dos bairros residenciais: Kinshasa extende-se por uns 40 km ao longo do seu eixo principal; Lagos, por uns 25; Dakar alonga os seus tentáculos até o prolongamento de Pikine, a 12 km de distância. (p. 88-89).

Definição de aglomeração urbana - Os organismos da ONU tem como princípio geral que “a aglomeração urbana compreende, por definição, a periferia, quer dizer, a zona fortemente povoada, exterior mas contínua aos limites da cidade“. Também foi assinalado (Murphy, 1966) que uma imagem da “cidade geográfica” aparecia no exame das fotografias aéreas ou da paisagem vista de um avião voando a grande altura, ou melhor ainda, de um satélite (p. 114). Na realidade, a urbanização prática vai sempre à frente da urbanização oficial  (p. 116).

Expansão da periferia na forma de mancha de óleo - A periferia de quase todas as grandes cidades obedece a este ritmo alternado de desenvolvimento que já foi qualificado de mancha de óleo. numa primeira fase, domina o crescimento acompanhando os eixos de comunicação; depois, constroem-se vias de acesso transversais que se tornam também áreas de urbanização. Finalmente, os terrenos agrícolas intercalares são, por sua vez, mais ou menos rapidamente conquistados pela maré invasora das construções urbanas (p. 121). Em suma: a conurbação é uma aglomeração com várias cabeças  (p. 127).

Concentração urbana e saúde - a concentração urbana é, para a saúde das pessoas, simultaneamente, a pior e a melhor das coisas. A pior, porque a densidade maior de promiscuidade, acumulação, contatos esporádicos, entre outros, favorece muito naturalmente a propagação de epidemias, a proliferação de doenças associadas á miséria e as desadaptações aos complexos patogênicos habituais. A melhor, porque permite, nas cidades mais desenvolvidas, a instalação de um poderoso equipamento sanitário, a multiplicidade de especialistas, a rapidez e a eficiência dos tratamentos (p. 297). Para além desta espécie de concentração das possibilidades de infecções que a cidade representa, o meio urbano ainda exerce um papel de perturbador dos hábitos tradicionais (p. 298).

Lugares de peregrinação - Os lugares de peregrinação são, assim, centros de difusão de doenças (p. 299).

Cidade e saúde - A saúde dos cidadãos é estreitamente dependente das condições oferecidas pelo quadro de vida e, em particular, pelo nível das estruturas de saúde disponíveis. É também dependente dos seus rendimentos, da política social praticada e do ritmo relativo da urbanização e das possibilidades de investimentos (p. 305).

Cidade e homem - Se o homem faz a cidade, a cidade faz o homem. O meio urbano dá ao indivíduo, tal como a sociedade, uma possibilidade de desenvolvimento, de evolução, que o meio rural nunca permitiria (p. 347).

Bairro - o bairro vivido é um espaço, tanto psicológico, como geográfico; constrói-se e destroi-se permanentemente ao longo da vida de um indivíduo(Bertrand e Metton, 1975) (pg. 354).

Mobilidade no espaço – As dimensões mudam conforme a idade e, portanto, conforme a facilidade de deslocamento e, ainda, de ocupação: dos 7 aos 10 anos, 3 ha; dos 14 aos 16 anos, 12 a 13 ha; para os adultos ativos que não tem muito tempo disponível, 11 ha; isto no ambiente antigo. O ambiente do mundo moderno, mais monótono, é muito mais restrito: para as mesmas categorias, os números são, respectivamente, menos de 2 ha, 9 ha, 7 a 8 ha. (p. 354). A mobilidade do cidadão pode ser intra-urbana, peri-urbana ou interurbana. Pode ser cotidiana, periódica ou a procura de uma nova estabilidade. Pode ter ligação com uma evolução social; uma influenciando a outra, para a reforçar, combater ou neutralizar. O ciidadão é vitima, agente e/ou motor destas forças que se traduzem na ação de mobilidade, que desempenha um papel fundamental na transformação do meio urbano, podendo mesmo melhorar ou criar seu equilíbrio, segundo as circunstâncias. (p. 356). O meio local aparece, pois, também como um centro de convergência de muitas forças, umas patentes, outras insidiosas. Não se pode separar o meio local do ambiente que o envolve. A transformação urbana pode ser o resultado de um processo de confrontos e de compromissos entre classes sociais em movimentos, entre o Estado, o poder local e os movimentos reivindicativos (Cherki, 1978) (p. 390).

Alargamento do processo de aglomeração urbana - A aglomeração alarga-se e já vimos como é difícil traçar os seus limites; mas agora trata-se de ir mais longe. Os geógrafos, para designar esta conquista fulgurante da cidade e dos seus prolongamentos, propuseram diferentes termos, entre os quais os de contra-urbanização (Kaiser, 1990), peri-urbanização e exurbanização são os mais frequentemente empregados (Dezert,Metton e Steinberg, 1991). Optou-se pelo terceiro porque, pela sua própria construção, evoca a imagem de pedaços urbanos, despegados da massa central (p. 424).

É um processo físico que se inscreve no antigo parcelamento rural e precede o avanço da metrópole vizinha, condicionando-o (Merlin, 1988) (p. 424). Os serviços estão muitas vezes sobrepostos de maneira anárquica e a lógica nem sempre é respeitada (p. 443).

Franja urbana - Espacialmente, em redor do núcleo central, mais ou menos saturado de atividades e despovoado de residencias, desenha-se uma enorme franja periférica, mais ou menos estruturada e equipada, que se dilui por vezes muito longe, no campo (p.455). O sentimento de unidade local, de região, atenua-se (p. 456) a mobilidade gera a uniformidade e a dependencia da terra desaparece e pouco e pouco (p. 456).

Isócronas - as isócronas são curvas que permitem por em evidência as condições de tempo em que se pode alcançar uma cidade, a partir de uma dada rede de comunicações. Trata-se pois, de uma acessibilidade potencial (p. 477). Em geral, a solução adotada consiste em tomar como referencia um ponto central único, na cidade considerada, e calcular o tempo dos transportes combinados, eventualmente, a partir deste ponto; obtem-se, assim, uma série de curvas que apresentam desvios circulares em torno dos ponto-chave (p. 478).

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